quarta-feira, 27 de abril de 2011

Salmo 14 - O Verdadeiro Órgão de Defesa do Consumidor

Ultimamente, ando decepcionado com as lojas e com as prestadoras de serviço. Tive péssimas experiências de ser bem atendido na hora de adquirir algo e, depois, na hora de receber o produto ou de ter suporte técnico e manutenção, ser extremamente negligenciado.

Dentre todas essas más experiências que acumulei, as piores foram aquelas cujo contato se dá por telefone. O motivo disso é que as empresas, ao que me parece, deliberadamente criam um sistema em que a burocracia vence os esforços dos clientes e burla o senso de justiça. Resumindo, elas fazem o que querem e você nunca tem com quem reclamar, já que os atendentes não passam de funcionários cuja função é apenas falar com as pessoas, registrar seus pedidos e – coitados deles – testemunhar a fúria de clientes explorados e enganados pelas empresas.

Desse modo, as ricas corporações ficam cada vez mais ricas, enquanto os pobres, principalmente os que têm menos recursos a que possam recorrer, ficam cada vez mais pobres. O desgosto do consumidor é tão grande que é comum ouvir: “Todos esses homens são desonestos e não há um deles que não seja ladrão”. É muito provável que a realidade não seja exatamente essa e que haja corporações que respeitem os direitos das pessoas, mas, ainda assim, concordamos, muitas vezes, com frases desse tipo.

Davi viveu uma situação parecida com a nossa. Mas o objeto do seu protesto não foram empresas de telefonia ou de cartões de crédito. O Salmo 14 é um protesto contra os “malfeitores” (v.4), os quais ele chama literalmente de “causadores de lamentos” (po‘alê ’awen). Trata-se de pessoas cujas ações trazem sofrimento àqueles que, por vezes, não têm como se defender: os “justos” (v.5) e os “pobres” (v.6). Os pobres vivem, quase sempre, à margem dos meios de justiça sem ter acesso a ele ou sem alcançar a empatia dos agentes da promoção da lei e da ordem. Os justos, por sua vez, são privados, por sua própria justiça, de terem reações vingativas ou condignas do desrespeito com que foram tratados. Sabendo disso, os malfeitores abusam deles ainda mais.

Davi diz, no v.1, que esses homens insensatos falam para si mesmos: “Não há Deus” (’ên ’elohîm). Apesar de a afirmação se parecer com a proposta dos ateus, não é provável que no mundo politeísta do passado houvesse muitos que acreditassem em um vácuo divino. Na verdade, o que passava no coração daqueles homens maus e injustos é que não havia um vingador das injustiças que eles cometiam. Para eles, não havia um juiz maior que todos que os pudesse deter ou punir. Por isso, diz o texto, eles “se perverteram” (hishhîtû) e “procederam de modo abominavelmente cruel” (hit‘îvû ‘alîlâ).

O v.2 contempla o Senhor fazendo uma sondagem nesses homens para ver se há, dentre tais homens, “aquele que busca a Deus” (doresh ’et-’elohîm). A resposta, duas vezes pronunciada (vv.1,3), é “não há quem faça o bem” (’ên ‘oseh-tôv). O v.3 reforça o quadro ruim demonstrando que, apesar da busca apurada, o resultado dela é que “não há nem sequer um” (’ên gam-’ehad) que aja bem ou busque a Deus. Apesar de Paulo aplicar esse texto à realidade de “toda” a raça humana em relação ao pecado (Rm 3.10-12), parece que o universo de “todos” aqueles que não fazem o bem compreende, no Salmo 14, apenas os “malfeitores”, que são contrastados, nesse salmo, com os “justos” e com os “pobres”. Trata-se de “todos” os que, conforme o v.3, “juntos se desviaram e se corromperam” (sar yahdan ne’elahû).

Por fim, a maldade e a falta de temor de tais homens são tão grandes que, além de não buscarem a Deus (v.2), também “não clamam a Deus” (yehwâ lo’ qara’û) por nada. São homens completamente desligados de Deus, confiantes em seus próprios recursos e confiantes de que não há quem os possa deter ou repreender. Por essa causa, eles se aproveitam dos indefesos de modo que Deus se refere a eles como “aqueles que devoram o meu povo como quem devora pão” (’okelê ‘ammî ’okelê lehem). Não há limites para os anseios desses malfeitores. Nenhum obstáculo os faz parar nem sua consciência os acusa de nada. Prejudicam as pessoas e conseguem, mesmo assim, dormir tranquilos.

Entretanto, esse abuso não é bem visto por Deus. Nem o Senhor se omite diante de tantas perversidades. Davi diz que, apesar de os malfeitores “ridicularizarem os alertas dos pobres” (‘atsat-‘anî tavîshû) sobre as consequências de agirem daquele modo, o Senhor atua em dois sentidos. O primeiro é agir como “refúgio” dos seus (v.6). Em segundo, agir como vingador no mal, causando “grande pavor” nos malfeitores (v.5). Por fim, Davi, que no momento vê os injustos prevalecerem, olha com esperanças para as promessas de Deus desejando que elas se cumpram logo e que o Senhor, em breve, venha a “restaurar o seu povo” (v.7), trazendo-lhe exultação e alegria.

Não sei mais quantas vezes serei tratado injustamente pelas empresas que são mais ricas e mais fortes do que eu. Mas sei que elas não podem conter a atuação de Deus, nem impedir que ele faça justiça aos seus, seja confortando-os no sofrimento, seja livrando-os das suas armadilhas. Por isso, olho para o futuro cheio de esperanças e fazendo coro com o rei Davi: “Tomara de Sião viesse a salvação”.

Pr. Thomas Tronco

Salmo 13 - Quando o Socorro Parece Atrasar

Sou um grande fã de filmes. Meus preferidos são filmes de aventura, de ação, de preferência se forem baseados em fatos reais. Alguns filmes marcam pela emoção que causam nas pessoas e, em mim, mais ainda. Um dos momentos mais emocionantes dos filmes é quando o mocinho está para ser pego e, em cima da hora, surge alguém ou algo que o livra quando tudo parecia perdido. Alguns exemplos nesse sentido que me vêem à mente são a cena onde Blondie (Clint Eastwood) atira na corda da forca do seu comparsa dependurado pelo pescoço em “O bom, o mau e o feio” e a cena da primeira luta travada em “Gladiador”, quando Maximus (Russell Crowe - foto), general do império, quase sucumbe diante do inimigo até que um cavaleiro romano, que passa rapidamente pela cena, desfere um golpe mortal no adversário.

Resumindo, em quase todos os filmes de ação o herói se safa no último momento. Essa é “quase” uma certeza matemática para os cinéfilos. Entretanto, na vida real não é tão certo que os heróis sejam salvos em cima da hora. Muitas vezes eles são pegos, são maltratados e até são mortos. Quando um perigo da vida real acerca alguém, não sabemos se todos serão “felizes para sempre” ao final de tudo. Muitas vezes os homens esperam um livramento, mesmo que no último momento, e ele não vem.

É nessa circunstância em que encontramos o rei Davi ao escrever o Salmo 13. Na verdade, esse salmo é uma oração a Deus em um momento de angústia. Talvez, mais do que isso. Esse salmo é um modelo de reação dos servos de Deus em momentos de angústia, quando o socorro perece demorar a vir. É um movimento crescente das emoções e reações que levam o servo de Deus do “vale da sombra da morte” (expressão usada por Davi no Salmo 23) até a “sombra do Onipotente” (expressão utilizada pelo escritor do Salmo 91).

Nessa jornada, Davi passa por três fazes. A primeira delas é a angústia, sentimento perceptível nos dois primeiros versículos do Salmo 13. Nesse trecho, Davi pergunta quatro vezes “até quando?” (‘ad-’anâ), ou “por quanto tempo?”, se dirigindo ao Senhor. Trata-se de uma pergunta feita por alguém que parece ter chagado em seu limite. Ele aguentou o quanto podia e quer saber quanto mais terá de suportar sem ter forças para tanto. Tais palavras refletem o desespero de quem não sabe se conseguirá se manter em pé diante da aflição. Ele olha para Deus e pergunta: “Por quanto mais tempo o Senhor me deixará nessa situação?”.

Davi pergunta até quando o Senhor “se esquecerá” dele e “ocultará seu rosto” (v.1). O contexto demonstra que Davi, ao se referir desse modo, não crê, de fato, que o Senhor o tenha abandonado, mas que ele está retardando sua atuação. É como se tivesse se esquecido de Davi e como se, desprezando-o, tivesse lhe virado o rosto como que zangado. O interesse de Davi não é saber por que o Senhor não o ama mais, mas até quando retardará sua libertação. Davi expõe diante de Deus, no v.2, a consequência dessa aparente demora perguntando ate quando ele lutará contra o que ele chama de “lamento diário no meu coração” (yagôn bilvavî yômam). Termina perguntando por quanto tempo seus inimigos “se levantarão” (yarûm ’oyevî ‘alay) ou “serão exaltados” sobre ele. Perguntas que, mais que o desejo de encontrar respostas, servem para expor sentimentos de angústia pela situação difícil.

Muita gente se perde nessa fase. O desespero as vence e elas caem em profunda depressão ou tomam atitudes mais destrutivas que benéficas, tanto para elas como para os outros. Mas Davi, nosso exemplo de servo que passa por problemas que não se resolvem, exibe mais uma atitude exemplar: a oração. Davi apresenta ao Senhor, nos vv.3,4, três pedidos. Os dois primeiros são: “olhe, por favor, e responda a mim” (havvîtah ‘anenî), desejando ser alvo da atenção especial do Senhor e ter sua oração atendida. Davi não pensa que Deus não o vê, mas deseja que o Senhor se compadeça dele na situação em que está e, diante da sua oração, atue agora, não com silêncio, mas com ação. Ele também pede “traga luz sobre mim, por favor” (há’îrâ ‘ênay). Trata-se de um pedido de solução para as trevas em que se encontra; um clamor pela atuação de Deus livrando-o daquilo que o oprime que, no caso, para que ele não seja morto pelos inimigos e para ele eles não sejam vitoriosos (vv.3b,4). “Olhe”, “responda” e “traga luz” são os pedidos que revelam um servo que leva a Deus seus problemas por meio da oração sabendo que somente ele pode responder os pedidos dos fiéis e dar fim à sua angústia.

Finalmente, a última fase da jornada de Davi é o descanso em Deus (vv.5,6). Três verbos expõem as ações de Davi, mesmo diante da circunstância desfavorável e persistente, no sentido de entregar completamente, não apenas o problema, mas também suas reações aos cuidados Senhor soberano e amoroso. Davi diz: “Eu, porém, confio na tua lealdade” (wa’anî behasdeka batahtî). Na verdade, é preciso uma explicação maior que a palavra “lealdade” para descrever o objeto da confiança de Davi. Ele confiava que as palavras de Deus eram verdadeiras e que ele cumpriria o que prometeu, não importasse quão complicadas fossem as circunstâncias, não apenas por que vinham de uma boca que só diz a verdade e de mãos honradas que não quebram um compromisso assumido, mas também de um coração amoroso, benigno e compassivo. Davi continua dizendo “meu coração se alegra na tua salvação” (yagel luvvî bîshû‘ateka). O objeto da alegria e da exultação de Davi, a “salvação” (yeshû‘â), é a ação libertadora identificada pelo próprio nome do “salvador” Jesus. Como resultado de tal exultação, Davi diz a si mesmo “cante eu ao Senhor” (’ashîrâ layhwâ). O motivo do louvor a Deus é surpreendente. No meio da situação difícil em que se encontrava, Davi vê o Senhor agindo no sentido de tratar-lhe bem.

Resumindo, a jornada de Davi o leva do desespero à oração e da oração ao descanso. O que parece impossível em um primeiro momento, é exemplificado diante de todos os servos de Deus como modelo de esperança e de dependência do Deus altíssimo. A oração, a confiança, a observação e a lembrança daquilo que Deus fez e faz na vida dos seus servos é um remédio contra a depressão mais poderoso do que queiram quaisquer indústrias farmacêuticas. Não se trata de autoajuda, mas da busca daquele que é soberano sobre o universo e amoroso para com os seus. O “eu, porém” de Davi no início do v.5 demonstra o conhecimento pessoal de rei sobre o quanto os acontecimentos são fracos e reversíveis nas mãos daquele cuja vontade nunca pode ser frustrada (Jó 42.2; Ef 1.11).

O cinema quase sempre mostra o mocinho se dando bem no último momento. Mas em um conceito estreito de “se dar bem”. Para tanto, ou ele “se dá bem” vendo a situação desesperadora ser revertida no último momento, ou “se dando mal” e isso reverter para o bem alheio, o que, no cinema, ainda faz um final feliz. Contudo, a vida do servo de Deus prevê um “bem” que vai além de todas as situações. Independente do final, o crente deve sempre manter seus olhos naquele que faz todas as coisas contribuírem para o benefício dos seus (Rm 8.28), mesmo quando os propósitos de Deus para eles são misteriosos.

Portanto, acima de tudo, a “certeza matemática” dos que creram em Cristo é: “minha história, agora ou no futuro, terá o maior dos finais felizes”. A esperança da vida presente dos cristãos é: “Nós, sim, seremos felizes para sempre”!

Pr. Thomas Tronco

sábado, 16 de abril de 2011

PESSACH - O Sacrifício do Cordeiro


PESSACH - O Sacrifício do Cordeiro

Como apresentar o sacrifício do cordeiro, HOJE?

Na meditação apresentada nestes últimos dias, deixamos em suspenso um problema relacionado com a comemoração da PÁSCOA.

Na TORÁ o Eterno determina que o sacrifício da Páscoa somente deveria ser realizado no templo da cidade eterna - IERUSHALAYIM.

Todavia, no ano 70 da era comum, nosso templo foi destruído pelas forças do Marechal Tito, do império romano. Desde lá até agora, nunca pudemos reconstruir o templo, nem mesmo após a retomada de Jerusálem em 1967, pois o LUGAR do templo está ocupado indevidamente e, desde então, como comemorar PESSACH sem o sangue do cordeiro?

Passo a transcrever o testemunho de um israelita que, examinando as Escrituras, encontrou resposta para esse problema. 

"Era primavera em São Francisco. Acabava de ser aberto um parlamento entre judeus e goyim, isto é, não judeus. Um idoso cavalheiro judeu disse: "Vossas casas terão de ser limpas de fermento; comereis pães ázimos e o cordeiro assado; ireis à Sinagoga e executareis o ritual e as regras do Talmude.

Mas vós vos esqueceis, meus irmãos, de que tendes tudo, exceto aquilo que o Eterno requer em primeiro lugar. Ele não disse: Quando vir vossas casas limpas do fermento ou quando vos vir comendo os pães ázimos e o cordeiro, ou quando fordes à Sinagoga! Sua Palavra diz: "Verei o sangue, e saltarei sobre vós."

Ah! Meus irmãos, vós não podeis substituí-lo. Precisais do sangue. Sim.

O SANGUE DO CORDEIRO!

Desde criança aprendi a ler a Lei, os Salmos e os Profetas, freqüentar a Sinagoga e estudar o hebraico. Quanto mais estudava a Lei, mais ressaltava a importância que o SANGUE tinha em todas as cerimônias ali descritas e, igualmente, impressionava-me a completa ausência dele no ritual que eu conhecia. Lia e relia Êxodo 12 e Levítico 16 e 17; e especialmente estes últimos capítulos faziam-me tremer, quando eu pensava no grande Dia da Expiação e na importância do sangue ali derramado. Dia e noite um versículo soava em meus ouvidos. "O sangue é que fará expiação". (Levítico 17:11).

E NÃO HAVIA O SANGUE DO CORDEIRO

Algo me dizia que a Lei não fora alterada, ainda que o templo tivesse sido destruído. Nada além do sangue poderia expiar pelas nossas almas. Não nos atrevíamos a derramar o sangue da expiação fora do lugar que o Eterno escolhera. E, por isso, tínhamos sido deixados sem expiação nenhuma. O pensamento me enchia de horror. Onde eu poderia encontrar o sangue da expiação?

Uma noite, vi um anúncio de uma reunião para judeus. A curiosidade me fez entrar ali e então ouvi um homem dizer: "O sangue de YESHUA-HAMASHIACH BEN DAVID - o Messias, Filho de Davi, nos purifica de todo o pecado. 

Ouvi com a respiração suspensa o pregador dizer que o HASHEM tinha declarado: que sem derramamento de sangue do cordeiro não há remissão dos pecados, e que o Eterno providenciou para Si o Cordeiro para morrer, como fez com Abraão e Isaque no Monte Moriá."

Caro amigo. Esse Cordeiro está profetizado em Isaías 53, do qual destaco os versos 7 e 8.

Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro... foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo foi ele ferido. 

Artigo extraído do site da MBM (Missão Brasileira Messiânica).

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Salmo 12 - O Perigo Por Trás da Língua Bajuladora

Certa vez, ouvi uma espécie de piada que frisava diferenças entre homens e mulheres. Segundo a piada, as mulheres se cumprimentam dizendo “nossa, você está linda, magrinha”; mas quando vão embora, dizem: “Como ela está gorda!”. Por sua vez, os homens se encontram e dizem: “Fala, seu gordo, careca”; ao partirem, o homem comenta: “Esse cara é gente fina”.

Piadas à parte, algo que realmente acontece é pessoas usarem palavras que não refletem o que pensam. E, pior: palavras que depois são contraditas por declarações pejorativas e destrutivas. Em resumo, trata-se de pessoas que pela frente dizem uma coisa e, por trás, outra.

Olhando para esse problema, Davi, no Salmo 12.1, pede “libertação” (do hebraico yasha‘) ao Senhor, pois, segundo ele, “acabaram-se os leais” (gamar hasîd), ou seja, os homens que agem com lealdade e veracidade. Junto com tais pessoas, também “desapareceram os confiáveis” (cassû ’emûnîm). A situação descrita por Davi é a de um covil de mentirosos. Mas, note bem: não se trata de inimigos abertos. Pela frente, tais homens são agradáveis, pois moldam sua imagem com o cinzel da mentira. Dizem coisas que seus corações não sentem e que são agradáveis aos ouvidos. Entretanto, pelas costas, destilam um veneno destruidor.

O v.2 expande essa idéia ao dizer que tais pessoas falavam “falsidades uns com os outros”. A mentira era uma atividade tão difundida e comum naquele meio que aqueles que mentiam eram também alvo da mentira de outros. Uns querendo levar vantagem sobre os outros fingindo ser o que não eram de verdade. Ao observá-los, Davi percebeu duas táticas desses homens para alcançar o fim que almejavam. O primeiro era usar “lábios bajuladores” (sefat halaqôt) que lisonjeiam os ouvintes com a intenção de manipular suas reações. A segunda era esconder os verdadeiros sentimentos e planos atrás de um “coração fingido” (lev yedabberû).

Apesar da falsidade, os desleais não temiam ser desmascarados e punidos. Além de a soberba (v.3) ser o combustível de suas línguas, o v.4 relata que, mesmo diante de Deus, sua arrogância era sentida, visto julgarem não haver ninguém que os pudesse deter ou reprovar. De forma desafiadora, Davi os vê agir como quem diz “quem é senhor para nós?” (mî ’adôn lanû), ou seja, “quem é que pode nos dizer o que fazer, ou nos punir se não o fizermos?”.

Não é de surpreender que Davi tenha pedido a Deus para libertá-lo de homens assim. Na verdade, eles são mais perigosos que os homens perversos e violentos, pois desses nos afastamos, enquanto, dos bajuladores falsos e desleais, acabamos mantendo o contato e pondo neles a confiança.

Mas Davi, ao mesmo tempo que observa a deslealdade dos homens, vê também a repulsa de Deus sobre essa atividade e a punição consequente, dizendo que “o Senhor corta” (yakret yehwah) todos os lábios bajuladores. Diante da opressão causada por esses egoístas lisonjeiros e mentirosos (Rm 16.18), o Senhor diz que intercede pelos que anseiam por libertação dos tais (v.5).

Assim, a confiança do rei está em Deus. Mesmo que os ímpios estejam por toda parte (v.8), o Senhor, que não é como eles e cujas palavras são “puras” (tehorôt) como a prata purificada várias vezes (v.6), é aquele que “guarda” e “cuida” (do hebraico shamar e natsar, respectivamente) dos que nele esperam.

Confesso que nessa época de eleições e de políticos agindo como esses homens descritos por Davi, talvez presentes até na sua corte, senti-me confortado e confiante em Deus, que vê e controla todas as coisas. Lembrei-me que, por mais que tais homens e mulheres desejem a ascensão, mesmo que isso signifique nossa ruína, o Senhor, ao mesmo tempo, olha com dureza para a arrogância e a maldade dos desleais e se levanta para socorrer os que não têm como se defender dos seus ardis.

Por fim, lembrei-me, também, da responsabilidade de não agir como aqueles que tememos e cujas ações nós reprovamos, seja no campo da política, da economia, do direito e até naquelas conversas informais quando encontramos conhecidos pela rua. Com todos, tenhamos apenas “uma cara” e “um discurso” Que o nosso “sim” sempre queira dizer “sim” e o nosso “não” queira, realmente, sempre dizer “não” (Mt 5.37)! Assim, no falar e no agir, sejamos nós mesmos “gente fina”.

Pr. Thomas Tronco

Salmo 11 - O Pessimista e Aquele que Confia em Deus

Muitos personagens dos desenhos animados ficaram gravados na mente de toda uma geração. E, acreditem, esses personagens ainda fazem parte do dia a dia de muita gente crescida. Basta ver como as pessoas utilizam tais personagens nas suas conversas. Por exemplo, se alguém está com o carro quebrado, diz que só pode andar se for com os pés, como faziam os Flintstones. Ou, se tem um palpite muito bom sobre algo, diz que teve uma “visão além do alcance” como dizia o líder dos Thundercats. Ainda, se há alguém muito forte, é apelidado de He-Man.

Um dos personagens de desenho animado que ainda é muito recordado é uma hiena chamada Hardy. Ele e seu amigo, o leão Lippy, fizeram parte da infância de muita gente, inclusive eu. O pessimismo do Hardy faz com que, até hoje, ele seja o modelo perfeito da pessoa pessimista. Para ele, tudo estava mal e nada daria certo. Sua famosa frase, repetida até hoje, era: “Ó céus; ó vida; ó azar”. Essa frase ainda pode ser ouvida nas rodas de amigos em imitações com o sotaque característico do personagem. Toda vez que a ouço, tenho saudades da minha infância.

Parece-me que tal pessimismo não é privilégio dos desenhos animados. O rei Davi conviveu com pessoas que, a exemplo do Hardy, não tinham qualquer esperança de ver o bem prevalecer sobre o mal. Pessoas que, ao primeiro sinal do mal, manifestavam a disposição de abandonar tudo sem recorrer a Deus como protetor e auxiliador dos que o buscam.

O Salmo 11 inicia com uma declaração da confiança de Davi em Deus: “No Senhor me refugio” (v.1). Essa declaração não é sem propósito. É uma afirmação que se contrapunha ao que Davi ouvia nos seus dias. Ele se dirige a tais pessoas e diz “como dizeis à minha alma?”, ’êk to’meru lenafshî. O fato de o verbo se apresentar na segunda pessoa masculina plural mostra que Davi se dirige a vários homens com essa pergunta, homens próximos dele. O rei está indignado com algo que eles lhe disseram. Em outras palavras, ele brada: “Como é que vocês podem me dizer uma coisa dessa?”.

O teor do discurso que irritou Davi foi: “Foge, como pássaro, para o teu monte. Porque eis aí os ímpios, armam o arco, dispõem a sua flecha na corda, para, às ocultas, dispararem contra os retos de coração. Ora, destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo?” (vv.1b-3). Segundo tais palavras, os maus eram tão poderosos quanto caçadores bem armados. Os justos, alvos dos caçadores, deveriam, portanto, fugir como se fossem um pássaro indefeso cuja única vantagem era a velocidade e o alcance da sua fuga. Segundo esses conselheiros do rei, a justiça perecera e nada podia reverter o mal; nada!

Davi não concorda com isso. É certo que ele não minimizava os riscos dos ataques e a ferocidade dos inimigos. Ele não confiava na sua habilidade, nem no poder da sua guarda pessoal. Ele não via a situação com um otimismo sem lógica, nem dizia que tudo terminaria bem apenas por dizer. Ele olhava para o Senhor e nele se refugiava, conforme revelou na primeira frase do salmo. A partir do v.4, Davi fornece, então, as razões para ter recorrido a Deus e para nele confiar.

Em primeiro lugar, Davi localiza o Senhor “no seu templo santo”, behêkal qadshô, e “no seu trono nos céus”, bashamayim kis‘ô. Esse é o lugar, figuradamente falando, onde habita alguém que, ao mesmo tempo, é Deus e rei acima de todos os reis. Um rei divino como autoridade e poder máximos. De seu trono, “seus olhos veem”, ou “prestam atenção”, ‘ênayw yehezû. Não há nada que o Senhor não conheça. Ele sabe tudo o que os homens fazem e até o que lhes passa no coração.

O v.5 é um texto de difícil tradução e diversas versões apresentam possibilidades plausíveis. A dúvida está em se Deus prova ou testa apenas o justo, ou se ele o faz em relação a ambos, o justo e o ímpio. Entretanto, algo sobre o qual não há qualquer dúvida é o fato de que “a sua alma [de Deus] odeia aqueles que amam a violência”, ’ohev hamas sane’â nafshô. Certamente, são palavras bem duras para se referir a uma reação ainda mais dura da parte do Senhor contra os perseguidores violentos dos justos. Amor e ódio estão presentes nessa frase e um é condicionado ao outro. O ódio de Deus não é gratuito, mas uma reação contra o amor ímpio dos homens pela maldade. Diante disso, o Senhor realmente toma o partido dos retos e antagoniza os maus.

O v.6 contém figuras de linguagem que têm a função de aclarar, para os leitores, a intensidade da ira de Deus que atingirá os perversos. A primeira figura vislumbra fogo caindo dos céus sobre os inimigos dos justos. E, nesse caso, é muito importante notar que o verbo “chover” está em um grau que, em hebraico, leva o nome de hiphil. Nesse caso, o texto não está dizendo que “irá chover”, mas que Deus “fará chover”, yamter: “Ele fará chover sobre os ímpios”. É uma atuação deliberada de Deus com a finalidade de punir. Tal castigo é descrito como uma chuva de “brasas de fogo e enxofre”. Como ler essas palavras e não se lembrar da destruição punitiva das cidades de Sodoma e Gomorra?

A figura de linguagem continua e é dito que um “vento violento”, ruah zil‘afôt, algo parecido com um furacão, seria sorvido pelos injustos como “a porção da taça deles”, menat kôsam. É irônico que o prazer dos perversos, como o de degustar um vinho, seja justamente a causa de receberem o contrário do prazer que buscam. Em lugar do paladar da bebida, o que alcançam estes é uma tormenta que os despedaça.

Para encerrar, Davi revela os motivos, não só para a sua confiança, mas para a atuação da parte de Deus ao punir o mau e proteger o reto. Ele diz que “o Senhor é justo”, tsadîq Yehwâ. Seu caráter é justo; sua natureza é justa; sua existência é justa. Não é possível que ele mude ou que afrouxe seus justos padrões. A justiça é parte do que ele é. Além disso, ele também “ama a justiça”, tsedaqôt ’ahev. Deus se compraz naquilo que é justo. Esse é o motivo, tanto de ele se opor aos injustos, como do fato de que “os retos verão a sua face”. Assim, ele punirá os perversos e receberá os retos para si mesmo.

Agora entendemos a indignação de Davi diante dos conselhos para que fugisse dos maus e da afirmação de que a injustiça teria prevalecido. Davi não era um otimista inconsequente, mas um conhecedor de Deus e da sua justiça. Ele sabia que podia recorrer a Deus e que ninguém há que possa se comparar em força a ele. Davi tinha convicção de que o Senhor é refúgio dos crentes em qualquer situação e de que o final de todas as histórias dos servos do Senhor é vitorioso na presença daquele que os protege.

Hoje em dia, com tantos receios sobre o futuro dos crentes e da igreja cristã, é nisso que você crê? Você confia no Senhor acima de todas as circunstâncias? Se a resposta for não, “ó céus; ó vida; ó azar”.

Pr. Thomas Tronco

terça-feira, 5 de abril de 2011

Salmo 10 - O Retrato do Ímpio

Acho incrível como os policiais são treinados para descreverem suspeitos e reconhecerem tais características nas pessoas. Enquanto certos indivíduos são maus fisionomistas, alguns homens da lei conseguem, ao olhar para uma pessoa, saber sua altura, peso, cor dos olhos e notar marcas como cicatrizes e tatuagens. Muitas vezes, a descrição física de um suspeito, para alguns policiais, equivale a um retrato. É uma qualidade admirável – e útil – que não compartilho com os agentes da segurança pública. Apesar de eu nunca me esquecer de um rosto, eu não sei descrever ninguém.

Ao que me parece, um dos salmistas soube fazer muito bem uma descrição. Na verdade, o escritor do Salmo 10 soube descrever o “perverso” tão bem que é como se tivéssemos um retrato dele.

O v.2 diz que o perverso age “com arrogância”, bega’awat, que também pode significar “com orgulho” ou “com majestade”. É o sentimento de quem se julga um tipo de rei. Para ele, seu valor pessoal supera o de todos ao redor. Ele deve ser servido e sua vontade atendida. Esse sentimento maligno, segundo o texto, o leva a perseguir o pobre, tramando contra ele. Nenhum sentimento de injustiça o dissuade de agir mal contra alguém, pois ele se acha no direito de fazer o que quiser.

Enquanto a cobiça é apontada pelas Escrituras como pecado e é vista com desprezo até pelo mundo, o perverso “se gloria da cobiça da sua alma” ou nos “desejos da sua alma” (v.3). A ideia de gloriar-se está expressa no verbo halal que, no grau em que se apresenta no texto, tem o sentido de “louvar, elogiar, exaltar”. É isso que o perverso faz: ele rende a si mesmo louvor e exaltação ao observar o “apetite da sua alma”, ta’awat naphshô. Apesar de essa expressão poder ter um sentido positivo, como em Isaías 26.8, o próprio v.3 dá pistas de quais são os “desejos” e “apetites” do perverso ao chamá-lo de “avarento”. Na verdade, o salmista usou um verbo para descrever a ação do perverso, botsea‘, que aponta para “aquele que arranca para si o lucro”. Nessa disposição, tal homem, diz o texto, “maldiz o Senhor”. Os anseios de tal homem são, portanto, diametralmente opostos ao desejo e ao caráter de Deus.

O fato de o perverso ser tão contrário a tudo que Deus é e ensina, não o preocupa. Na verdade, ele sequer se detém para avaliar sua vida. O v.4 diz que, por causa do seu orgulho, ele “não investiga” o fato de Deus não fazer parte de todas as suas cogitações. Darash é uma “busca” que o perverso não realiza. Afinal, que erros podem ser encontrados pelo soberbo em si mesmo? Confiado na sua perfeição e no seu valor que excede o valor dos outros, ele “desafia”, yaphyah, todos quantos se opõem a ele (v.5). Sua confiança de jamais ser abalado e de não ser alvo de nenhum mal, conforme o v.6, é algo que ele repete para si mesmo “em seu coração”, belibô. Seu mal, sua soberba e sua confiança enganosa são algo nutrido no seu íntimo. Tais sentimentos estão enraizados nele.

Não são apenas os atos do perverso que são maus. Aquilo que ele fala é “cheio” de maldade. Ele pronuncia “maldição”, ’alah, por meio da sua boca. Sua língua é suficiente para causar destruição em sofrimento. O v.7 nos diz que naquilo que o injusto profere há “mentira”, mirmah,“engano”, tok, “opressão”, ‘amal, e “maldade”, ’awen. Não há como minimizar o mal e a violência capazes de ser exercidos pela boca do ímpio. Sua língua deve ser mais temida que suas mãos.

Munido de tamanha maldade, o perverso olha para o desamparado e fica de “tocaia” (v.8), e prepara-lhe uma “emboscada” (v.9). Seu objetivo, segundo o v.8, é “exterminar os inocentes”, yaharog naqy, e, conforme o v.9,  “arrastar com sua rede”, bemoshkô berishtô. Como um predador esperando a vítima, diz o v.10, ele “se abaixa e fica encurvado”, wadakah yashoah, preparando, assim, um ataque mortal. Essas três expressões transmitem ideias de caça: um animal matando uma presa para devorá-la, um pescador puxando sua rede com o peixe desavisado e um leão se ocultando na savana para atacar de surpresa. São três modos contundentes de avisar-nos sobre o perigo que representam os perversos para aqueles que não são como eles.

Finalmente, o v.11 mostra que o perverso, como muitos criminosos e corruptos no nosso país, tem a certeza da sua impunidade. Quando olha para sua maldade e suas ações traiçoeiras, diz para si mesmo que “Deus se esqueceu”, shakah ’el, no sentido de não se importar com o que acontece. Para o perverso, não há um juiz superior que o possa punir pelo que faz simplesmente porque tal juiz não atua. Por isso, ele se convence de que seu mal Deus “não vê nunca”, bal-ra‘ah lanetzah. Tal convicção não vem apenas da arrogância, mas também do desprezo por Deus e pela sua justiça e santidade.

Esse é um retrato terrível de alguém com quem devemos nos preocupar. O homem perverso é um risco para os servos do Senhor. Aquele que despreza Deus e a sua salvação é inimigo dos que amam o Senhor Jesus, ainda que não lhe tenham feito nada de mal. Portanto, na convivência com eles e até na pregação do Evangelho a eles, o cristão deve manter cautela a fim de não ser ferido, seja por meio da oposição aberta, seja por meio do desvio velado em um contato mais íntimo com o ímpio. Muitos servos do Senhor têm sido perseguidos pelo ódio dos ímpios, enquanto outros têm se desviado da santidade por meio do “amor” dos incrédulos. As táticas para abater a presa são muitas.

Com o retrato do perverso em mãos, devemos ficar atentos como os policiais a fim de reconhecer o perigo e nos prevenir dos seus males. Afinal, depois de a casa ser roubada, pouco sobra para a polícia fazer.

Pr. Thomas Tronco

Salmo 9 - A Quem Recorrer no Dia Mau?

Nessa semana, furei meu pé em uma haste de ferro que sustenta uma tenda de nylon instalada no gramado de casa. Depois de ensanguentar minha cozinha, sala, quarto e banheiro, procurei o hospital que atende meu convênio a fim de tomar uma vacina contra tétano. Ouvi, lá, da atendente, que eu deveria procurar tal medicamento na rede pública de saúde. Dirigi-me para a um hospital público e aguardei um bom tempo até ser chamado junto com outras quatro pessoas. Para minha surpresa, os cinco pacientes foram atendidos em apenas 3 minutos. Minha consulta não demorou mais do que o tempo de eu contar para o médico que havia perfurado meu pé em um ferro, ele me perguntar se era o pé direito ou esquerdo – não sei para quê – e, sem nem sequer olhar o ferimento, me receitar duas injeções, a vacina e um antibiótico de largo espectro. Para ser bem sincero, me senti completamente desamparado e sem ter a quem recorrer que pudesse me dar conforto e segurança.

Nesse sentido, toda vez que leio a história da mulher usada por Joabe a fim de fazer Davi receber Absalão de volta em Jerusalém (2Sm 14.1-24), fico abismado com um aspecto em particular: uma mulher desconhecida conseguiu facilmente uma audiência com o rei. Que diferença da realidade atual! Multidões, por vezes, aguardam horas e horas, debaixo de Sol e chuva, para ver de longe uma autoridade famosa como presidentes, reis e primeiros-ministros. Falar pessoalmente com eles? Impossível! Encontrar neles compaixão? Só se outros milhares estiverem sob as mesmas circunstâncias e se a solução do problema tiver repercussão na mídia. Ver tais líderes tomarem decisões justas? A justiça, muitas vezes, é interpretada conforme os interesses dos poderosos.

Concordo que não é uma visão animadora, nem o que nos espera, muito promissor. Entretanto, não perco as esperanças quanto ao futuro, pois me lembro que, após os desmandos dos governantes humanos, haverá quem governe de modo especial. O Salmo 9, cântico no qual o rei Davi louva a Deus por livrá-lo dos inimigos maus e roga que o livra da fúria deles, traz alguns aspectos da função do Senhor como governante.

Em primeiro lugar, ele julga com retidão inabalável. Davi diz que Deus “permanece no seu trono eternamente, trono que erigiu para julgar. Ele mesmo julga o mundo com justiça;” (vv.7,8a). A segunda parte do v.7 diz que Deus “se assentou no trono para o julgamento” (tradução literal). Entretanto, o início do versículo demonstra que essa não é uma realidade momentânea ou dependente das circunstâncias ou dos humores. Trata-se de uma disposição permanente de Deus, pois, para julgar, ele se assenta “eternamente”, le`olam. Nada pode demovê-lo desse intento ou retirá-lo desse trono. Ele é um justo juiz todo o tempo e para sempre.

Em segundo lugar, ele governa soberanamente as nações. O salmista afirma que o Senhor “administra os povos com retidão” (v.8b). O verbo dyn significa, em sentido restrito, “julgar”, o que condiz com a figura do juiz apresentado no início da frase. Mas, em sentido amplo, significa “reinar, governar”. Dado o caráter judicial dos reis da época, os atos de julgar e de reinar vinham da mesma fonte. Por isso, o texto revela que Deus, não apenas pune os maus, mas “dirige” as pessoas. Seu poder faz valer suas decisões. Com Deus não existe aquela máxima tão triste de quem depende da justiça humana: “Ganhou, mas não levou”. A soberania do Senhor se faz sentir quando ele traz uma questão a julgamento.

Em terceiro, ele alivia os oprimidos. O texto diz que Deus é “alto refúgio para o oprimido, refúgio nas horas de tribulação” (v.9). A ausência de justiça por parte dos homens sempre trouxe sofrimento aos fracos. O próprio Deus acusou os israelitas, certa vez, de não promoverem a justiça que ele ordenou: “Este [o Senhor] desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor” (Is 5.7). A injustiça de uns é o clamor de outros. Para ambos, Deus tem um tipo de tratamento: juízo para os injustos e alívio para os que clamam. Ele é um “refúgio”, diz o v.9, nas “horas de fome ou de seca”, le`ittot batzarah, o que, figuradamente, lembra da opressão e da necessidade que passa quem procura a justiça e não a encontra.

Em quarto lugar, ele é acessível aos que o buscam. Davi também diz: “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome, porque tu, Senhor, não desamparas os que te buscam” (v.10). Com uma atitude justa e inabalável, é óbvio que Deus é o alvo da confiança dos que dele necessitam e que nele buscam amparo. Contudo, algo notável surge de uma observação atenta do texto. Davi nos conta quem tem esses benefícios por parte de Deus. Diferente do mundo, onde quem é beneficiado são os poderosos em influentes em detrimento dos fracos, o alvo da benevolência e do julgamento reto do Senhor são os que o “buscam”. Enquanto, em Israel, muitas vezes a situação era de príncipes que vendiam sentenças contra os pobres que buscavam seus direitos, com Deus, aqueles que buscam nele amparo, de fato o encontram. O verbo darash reflete a atitude de um servo que, reconhecendo em outro o poder, a capacidade e a justiça, busca-o para sanar seu anseio.

Essa visão é reconfortante para o cristão quando percebe que não há, entre os homens, a quem recorrer. O Senhor é completamente diferente. Ele ama a justiça, odeia o pecado, ama os que o buscam e efetua, poderosamente, a sua vontade. E o melhor de tudo: quando Deus age, nunca é necessário recorrer a outra instância. Com Deus assentado em seu trono, não há comissão de ética, nem tribunal de apelação. Busque-o e recorra a ele!

Pr. Thomas Tronco

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Servi ao Senhor de todo coração




Sirva-o hoje

Leitura da Semana:

1 Samuel 12:19-25

Juízes 9–10
Lucas 5:17-39

…não vos desvieis de seguir o Senhor, mas servi ao Senhor de todo o vosso coração. —1 Samuel 12:20

A maioria de nós já quis algo tão avidamente que, mesmo sabendo que era errado, nos lançamos nesta busca de qualquer maneira. Mais tarde, sentimos culpa pela teimosia espiritual e estupidez. Ao desobedecermos a Deus deliberadamente, podemos irar-nos com nós mesmos, sermos entorpecidos pelo remorso ou entregues às consequências de nosso erro tolo. Mas há outra escolha.

Quando o povo de Israel insistiu em ter um rei, apesar dos avisos do profeta Samuel (1 Samuel 8:4-9), Deus permitiu que acontecesse como eles desejavam. Porém, quando perceberam os resultados trágicos de sua escolha, pediram a ajuda e as orações de Samuel (12:19). Samuel disse ao povo: “…Não temais; tendes cometido todo este mal; no entanto, não vos desvieis de seguir o Senhor, mas servi ao Senhor de todo o vosso coração” (12:20).

Não podemos desfazer o dia de ontem, mas podemos agir hoje de modo a influenciarmos o amanhã. Samuel prometeu orar por eles e ensinar-lhes o caminho certo, e frisou: “Tão-somente, pois, temei ao Senhor e servi-o fielmente de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez” (1 Samuel 12:24).

Deus nos convida a servi-lo hoje, e a reconhermos humildemente Seu perdão e Sua fidelidade.

Não permita que os fracassos de ontem arruínem os esforços de amanhã.

David C. McCasland

domingo, 3 de abril de 2011

Liberdade de Consciência e de Expressão


No dia 17/03, a Universidade Presbiteriana Mackenzie realizou um ato solene de lançamento de sua Carta de Princípios 2011.
O tema da carta de princípios deste ano é “Liberdade de Consciência e de Expressão”. Assunto mais do que pertine nte e necessário, pois, expressar nossa fé nos dias de hoje, no Brasil, é algo que tem causado incômodo a vários setores da sociedade. Via de regra aqueles de caráter libertário e libertino – que não podem aceitar o elevado padrão moral imposto pela fé cristã. Mas, vemos nos princípios das Escrituras o dever de andarmos com retidão em nossa sociedade, sendo luz e exemplos de nosso proceder diante do ímpio e usando a espada e o poder do estado para promover a justiça e a eqüidade. Temos o dever cristão de afirmarmos a nossa fé com liberdade e a usarmos – como fez o apóstolo Paulo – o direito divino (contemplado e assimilado pelas leis) para defender nossa fé, nossa dignidade, nossa liberdade, nossa consciência e o direito que temos de proclamar e expressar o que cremos.
Tiago Santos
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Carta de Princípios Mackenzie 2011 – Liberdade de Consciência e de Expressão
Introdução
Os conceitos de liberdade de consciência e de expressão têm recebido crescente atenção pública em nosso país em anos recentes. Entre as diversas causas, estão o crescimento da pluralidade cultural, da diversidade religiosa e do relativismo como fatores integrantes da sociedade brasileira. De que maneira as pessoas podem ter e expressar suas convicções em um ambiente onde outros indivíduos pensam e se comportam de maneira diversa dessas convicções? Essa questão também faz parte do cotidiano universitário, especialmente em instituições confessionais como o Mackenzie, que primam por princípios éticos ao mesmo tempo em que sustentam a autonomia universitária.
O Que é Liberdade de Consciência e de Expressão
Acreditar no que quiser é um direito intrínseco a cada ser humano. A consciência é foro íntimo, inviolável, sobre o qual outros não podem legislar. Faz parte da nossa humanidade termos nossas próprias ideias, convicções e crenças. E é daqui que procede a outra liberdade, a de expressão, que consiste no direito de alguém declarar o que acredita e os motivos pelos quais acredita de determinada forma e não de outra. Nesse direito está implícito o que chamamos de “contraditório”, que é a liberdade de análise e posicionamento contrário às expressões ou manifestações de outras pessoas em qualquer área da vida. A liberdade de consciência diz respeito ao que cremos, interiormente. Já a liberdade de expressão é a manifestação externa dessas crenças.
Os Fundamentos da Liberdade de Consciência e de Expressão
O direito individual de pensar livremente e de expressar tais pensamentos é garantido em todas as democracias do mundo ocidental.
A Constituição
No Brasil, a liberdade de consciência e de expressão do pensamento é garantida pela Constituição em vigor. Sua origem se encontra no caput do Artigo 5º, “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, sendo assegurada a inviolabilidade dessa condição de igualdade. Se todos são iguais, todos podem expressar suas ideias, pensamentos e crenças, desde que os direitos dos outros sejam respeitados. Ao tratar dos direitos e garantias fundamentais, a Constituição diz no Artigo 5º:
IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
VI – é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.
A liberdade de expressão religiosa é decorrente da liberdade de consciência e consiste no direito das pessoas de manifestarem suas crenças ou descrenças. Aqui se incluem adeptos das religiões, do ateísmo e do agnosticismo. Por ter origem na consciência, a liberdade de expressão religiosa inclui concepções morais, éticas e comportamentais, que são desenvolvimentos da crença individual. A separação entre Igreja e Estado no Brasil significa tão somente que nosso país não adota e nem protege uma ou mais religiões. O Estado é “laico”, mas, não sendo antirreligioso, ele garante o direito de seus cidadãos professarem publicamente e praticarem a religião que quiserem, assegurando-lhes que não serão discriminados por isso, conforme o mesmo Artigo 5º:
VIII – ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política…
Direitos Humanos
A Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 também se preocupou em resguardar a liberdade de consciência e de expressão, particularmente a expressão religiosa. O artigo 18 diz: Todo homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou particular. Entendemos que esse amplo reconhecimento das liberdades individuais tem fundamento no fato, nem sempre considerado, de que o ser humano foi criado por Deus.
A imagem de Deus
Do ponto de vista da fé cristã, a liberdade de consciência decorre fundamentalmente do fato de termos sido criados por Deus como seres morais livres. É uma das coisas incluídas na “imagem e semelhança de Deus” com que fomos criados, de acordo com o relato de Gênesis 1.26-27: Então disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão. Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. O homem recebeu, por direito de criação, a capacidade de julgar entre o certo e o errado e escolher entre os dois. Ele podia livremente ponderar, analisar e, então, escolher. O fato de que ele teria de arcar com as consequências de suas escolhas diante do Criador não anulava, todavia, seu direito de fazê-las e defendê-las. É nisto que reside o que chamamos de liberdade de consciência e de expressão. Como um ser criado, o homem responde diretamente ao Criador pelo uso dessas liberdades. Ousamos dizer que uma das influências decisivas para que essas liberdades fossem reconhecidas no mundo ocidental veio da Reforma Protestante do século XVI. Os cristãos enfatizaram a necessidade da separação entre a Igreja e o Estado, destacaram o fato de que cada cristão tem sua consciência cativa somente a Deus e defenderam o sacerdócio universal de todos os cristãos. Um exemplo dos esforços destes cristãos para garantir a liberdade de expressão é o apelo de John Milton ao Parlamento Inglês, em 1644, em defesa da liberdade de imprensa.1

Os Limites da Manifestação do Pensamento
Sociedades plurais em países em que há separação entre Igreja e Estado sempre terão de enfrentar o dilema entre a liberdade de manifestação do pensamento e os direitos individuais. Se por um lado as leis brasileiras nos garantem a liberdade de expressão, por outro, elas também preservam a honra e a imagem das pessoas. Não se pode denegrir uma determinada pessoa em nome da liberdade de expressão.
Falar e assumir
Conforme reza a Constituição, uma das condições para que se manifeste livremente o pensamento no Brasil é que a pessoa se identifique e assuma o que disse ou escreveu. O anonimato anula a validade da expressão, ainda que ela contenha méritos, pois sugere que o autor não tem dignidade e nobreza. Também denota que essa manifestação não vem acompanhada da necessária responsabilidade pelo ato praticado.
Contradizer e respeitar
Em sociedades multiculturais e plurais, pensamentos, crenças e convicções que são livremente expressos podem contrariar ou contraditar outros pensamentos, crenças e convicções quanto aos valores morais, crenças religiosas e preferências pessoais. Tais discordâncias, todavia, não podem ser vistas como formas de se denegrir a honra e a imagem dos indivíduos de quem se discorda. Se assim fosse, seria impossível a discussão de ideias e a apresentação do contraditório, especialmente no ambiente da Universidade. De acordo com os princípios da fé cristã, o amor a Deus e ao próximo são os maiores deveres de cada ser humano. Amar ao próximo significa respeitar o nome, os bens, a autoridade, a família, a integridade e a reputação das pessoas, independentemente das convicções religiosas, políticas e pessoais delas. Os cristãos podem discordar das pessoas e ainda assim manifestar apreço e respeito por elas. Quando cristãos deixam de amar as pessoas ao seu redor, estão violando um dos preceitos mais conhecidos de Jesus Cristo, que é amar ao próximo como a si mesmo. Os cristãos, na verdade, devem ir além e amar inclusive os seus inimigos, conforme o próprio Jesus ensinou (Mateus 5.44).
Livre mas não neutra
Em tudo isso, há outro elemento que não pode ser ignorado, o fato de que o ser humano, usando suas liberdades acima descritas, resolveu tornar-se independente de Deus e viver uma vida autônoma. O livro de Gênesis (3.1-24) registra esse momento, que na teologia cristã recebe o nome de "Queda", termo que indica que essa busca de autonomia implicou em uma caída daquele estado original de liberdade de consciência e expressão. Não que o homem tenha perdido essas liberdades – ele ainda as mantém. Só que tanto a sua consciência quanto a sua capacidade de julgar e escolher entre o bem e o mal, tendo abandonado a Deus como referencial, são inclinadas ao mal, ao erro, ao egoísmo. E como decorrência, sua expressão, embora livre, reflete essa tendência ao mal. Uma das manifestações do impacto da Queda na liberdade humana é a tendência de se procurar suprimir a liberdade dos que discordam de nós. Os que professam a fé cristã devem reconhecer que todas as pessoas, inclusive aquelas que não acreditam em Deus e que têm práticas contrárias à ética cristã, têm o direito fundamental de pensar e acreditar no que quiserem e de viver de acordo com suas crenças. Os cristãos entendem também que se manifestar contrariamente ao que pensam e fazem essas pessoas não é incitamento ao ódio, mas o exercício desse mesmo direito fundamental. Aqui citamos o dito de Voltaire, "não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte vosso direito de dizê-lo."2 Essa frase fala tanto do direito que temos de discordar dos outros quanto do direito que os outros têm de discordar de nós, direitos pelos quais deveríamos estar dispostos a lutar, uma vez que, perdidos, deixam a todos amordaçados.
Liberdade, Responsabilidade e Cidadania
Como Universidade confessional, o Mackenzie busca, conforme seu Estatuto, "a adoção de um Código de Ética baseado nos ditames da consciência e do bem, que reflitam os valores morais exarados nas Escrituras Sagradas, voltados para exercício crítico da cidadania" (Artigo 3º). Os termos do artigo citado frisam as bases da visão ética dessa Escola em prol da preservação da dignidade do homem: a iluminação pela Palavra de Deus e a consideração da consciência para o exercício livre de sua manifestação na sociedade. Ao mesmo tempo, o Mackenzie também respeita a consciência de cada um de seus alunos, como diz o Estatuto, "A assistência espiritual à comunidade universitária, respeitada a consciência de cada um, é proporcionada pela Capelania Universitária, em conformidade com a natureza confessional presbiteriana" (Estatuto, Artigo 67). Liberdade de consciência e de expressão são privilégios do ser humano por direito de criação. Jamais podemos abrir mão deles sob risco de diminuirmos nossa humanidade e a imagem de Deus em nós.
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1 – MILTON, John, Areopagitica: Discurso pela Liberdade de Imprensa ao Parlamento. Editora Topbooks, 1999. Rio de Janeiro, RJ.
2 – Voltaire (François Marie Arouet, 1694-1778), um dos mais famosos filósofos do Iluminismo, ficou conhecido por sua batalha incessante em prol das liberdades civis, especialmente da liberdade religiosa.

Rev. Dr. Augustus Nicodemus Lopes
Chanceler da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Agradecemos a todos que colaboraram na confecção desta Carta de Princípios.

Obras Recomendadas

ALTHUSIUS, Johannes. Política. Rio de Janeiro: TopBooks, 2003.
ASH, Timothy Garton. Nós, o Povo: a Revolução de 1989 em Varsóvia, Budapeste, Berlim e Praga. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
BARBOSA, Rui. A Imprensa e o Dever da Verdade. São Paulo: Com-Art, 1990.
HAVEL, Václav. Entrevista a Distância. São Paulo: Siciliano, 1991.
KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
MILTON, John. Areopagitica: Discurso pela Liberdade de Imprensa ao Parlamento. Rio de Janeiro: Topbooks, 1999.
ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
POLANY, Michael. A Lógica da Liberdade. Rio de Janeiro: Topbooks, 2003.
SCHAEFFER, Francis. "Um Manifesto Cristão" in: A Igreja no Século 21. São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 157-239.