quinta-feira, 26 de maio de 2011

Salmo 22 - Quando o Rei se Faz Servo

Recentemente, assisti ao filme 300, que conta a história real de uma parte da resistência grega à invasão medo-persa na Segunda Guerra Médica (século 5 a.C.). Por mais que o filme contenha cenas exageradas, a história é real. Em meados do ano 480 a.C., Leônidas I, rei de Esparta, liderou cerca de 7 mil soldados gregos, dos quais apenas trezentos eram espartanos, contra o inumerável exército de Xerxes I, também conhecido como Artaxerxes no livro de Esdras – apesar de alguns estudiosos o identificarem com o Assuero do livro de Ester. Não obstante o sucesso em repelir os ataques iniciais dos persas, a descoberta de um caminho que possibilitou ao exército de Xerxes cercar os gregos fez restar, na resistência final, apenas o rei Leônidas, seus trezentos soldados espartanos e alguns tebanos e tespienses que se recusaram a se retirar. O morticínio, obviamente, foi completo.

Mesmo com a derrota, essa história é um marco inspirador na história grega e – por que não? – na história da humanidade. O compromisso daqueles homens com seu país e sua obediência às leis foram tão impressionantes que fizeram jus aos dizeres do poeta Simônides de Ceos grafados em um monumento em homenagem aos trezentos: “Estrangeiro, vá contar aos espartanos que jazemos aqui em obediência às suas normas”. Entretanto, o que mais me impressiona é o fato de um rei, sem quaisquer chances reais de vitória, ter lutado e se sacrificado como um soldado comum. Não é sempre que vemos reis à frente dos seus soldados. Não é sempre que vemos reis servindo seu povo até o último suspiro de vida.

Felizmente, esse não é o único exemplo de um rei que se fez servo e deu a vida para defender seu povo. O Salmo 22 prenunciou atitudes reais de outro rei que se fez servo. Não me refiro a Davi, autor do salmo. É certo que ele escreveu a respeito da sua realidade no salmo em questão. Assim como em outros cânticos que compôs, ele apresenta a Deus sua situação de desespero (vv.1,2), sua confiança no Senhor (vv.3-5), a consciência da sua condição humana limitada (vv.6-8), sua dependência de Deus (vv.9-11), sua queixa contra a perseguição dos inimigos (vv.12-18), o clamor a Deus por livramento (vv.19-21) e a exaltação do Libertador (vv.22-31). Contudo, o Espírito Santo de Deus, autor último dasEscrituras (2Tm 3.16; 2Pe 1.21), parece ter revelado, por meio de Davi, no seu salmo de clamor por socorro, realidades da vida e da obra de outro rei. O Novo Testamento mostra que tal rei, o Messias, mais ainda que o rei de Esparta, agiria como um servo para seu povo.

O salmo inicia com o primeiro traço da obra do Messias contido no texto que é o fato de que ele foi alvo do juízo divino em lugar dos pecadores. O v.1 diz: “Meu Deus, meu Deus, por que tu me abandonaste?” (’elî ’elî lamâ ‘azavtanî). Essas palavras foram ditas na cruz por Jesus, o Messias, por volta das três horas da tarde, ou seja, poucos minutos antes de morrer (Mt 27.46; Mc 15.34). A Bíblia explica que sua morte não foi um acidente de percurso ou um efeito colateral de um plano maltraçado. Jesus deliberadamente deu sua vida (Jo 10.18). O motivo foi salvar aqueles que creem em seu nome (Jo 3.16; 1Jo 3.16). Para isso, teve de trocar de lugar com aqueles que ia salvar assumindo sua condenação (1Pe 3.18 cf. Gl 3.13,14). Ele serviu seus amados dando a vida por eles e se tornando o objeto do juízo de Deus sobre os pecados dos eleitos. O v.16 completa: “Como faz um leão, perfuraram minhas mãos e meus pés” (ka’arî yaday weraglay). Diante de uma frase como essa, não é possível esquecer do que disse Isaías: “Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades” (Is 53.5).

O segundo traço da obra servil do Messias é que ele foi um homem de condição humilde e destituída de glória. O v.6 pinta um quadro nada glamoroso ao dizer: “Vergonha da humanidade e desprezado do povo” (herpat ’adam ûbezûy ‘am). O profeta Isaías, ao falar do Messias, a quem costuma chamar de “servo de Deus”, escreve, em um dos capítulos mais conhecidos do seu livro: “Não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso” (Is 53.2,3). Ao contrário do que todos poderiam esperar, Jesus não exibiu externamente em seu corpo a glória da sua divindade. Foi um trabalhador braçal – um carpinteiro – até o início do seu ministério. As pessoas o olhavam e viam apenas uma pessoa simples, sem nada a ser honrado ou admirado.

Em terceiro lugar, ele foi zombado e tratado com desprezo. O v.7 traz uma cena que entristece nosso coração ao lembrar o que Jesus passou enquanto, pregado à cruz, aguardava a morte. O salmista escreveu: “Todos aqueles que me veem caçoam de mim” (kol-ro‘ay yali‘gû lî). É o retrato de uma turba zombando e se mostrando ao desprezado. O texto continua: “Eles meneiam a cabeça” (yanî‘û ro’sh). Trata-se não apenas de uma atitude irreverente e desrespeitosa, mas de uma demonstração maldosa de desprezo com a intenção de causar sofrimento e vergonha. O v.8 completa o quadro: “Recorra ao Senhor! Ele o livrará! Ele o salvará, pois se compraz nele!” (gol ’el-yehwâ yepalletehû yattsîlehû kî hapets bô). Longe de serem palavras de encorajamento, trata-se de pura zombaria contra alguém aparentemente indefeso. O que foi dito nos vv.7,8 se cumpriu literalmente, em meio a gargalhadas, durante a permanência de Jesus na cruz (Mt 27.39,43).

Em quarto lugar, Jesus foi perseguido na sua infância. Herodes, rei de Israel, ao saber do nascimento de Jesus, ordenou a morte de todas as crianças com menos de dois anos que viviam na cidade de Belém (Mt 2.1-12,16-18). Jesus teria sido vítima de tamanha crueldade se Deus, por meio de um anjo que apareceu a José, não tivesse tirado Jesus de Belém a tempo, enviando-o para a terra do Egito (Mt 2.13-15), o que o fez sofrer, ainda infante, o exílio da sua terra natal. Tal acontecimento se deixa prever nas palavras do salmista (v.9): “Conduziu-me em segurança no colo da minha mãe” (mavtîhî ‘al-shedê ’immî).

O quinto traço da obra de Jesus é que ele foi espoliado e seus bens foram repartidos. No v.18, escreve o salmista: “Eles repartem as minhas vestes entre si e jogam pela a minha túnica” (yehalleqû begaday lahem we‘al-lebûshî yaffîlû gôral), mais uma peculiaridade cumprida perfeitamente na crucificação por meio dos soldados romanos que, tomando as roupas de Jesus – os condenados eram crucificados nus –, fizeram exatamente o que oSalmo 22, escrito mais de mil anos antes, descreveu (Jo 19.23,24).

Jesus, Deus eterno (Jo 1.1), sabia que cada um desses fatores era necessário para o cumprimento do propósito de salvar seu povo, sua igreja. E assim o fez, com a atitude real de um servo – ou, com a atitude servil de um rei. Um rei que assumiu uma carga que não exigiu de seus súditos. Um rei que, apesar da glória, morreu para salvar e proteger seu povo de quem, mesmo ultrajado na cruz, não se envergonhou. Um rei que, em lugar de ser servido, serviu aos que ama.

Diante de tão grande desprendimento do rei Jesus, cabe agora à igreja, beneficiada por sua morte, manter viva a proclamação da mensagem do rei eterno, salvador dos que nele creem e confiam. Cabe também a ela manter o testemunho de vida compatível com a grandeza e a santidade do seu soberano, sem nunca se envergonhar dele ou do seu evangelho. E se o mundo, com sua falsa sabedoria e tola arrogância, quiser tirar da igreja suas convicções e responsabilidades, os súditos daquele que os salvou devem se unir e, com a coragem e a ousadia dadas pelo Espírito Santo, devem bradar o mesmo que está escrito sob uma estátua de Leônidas I, na Grécia, que é o registro em pedra do que respondeu ele à ordem persa de entregar suas armas: “Venham tomá-las!”.

Pr. Thomas Tronco

Salmo 21 - Ações que nos Levam a Agradecer

Li, certa vez, sobre um capelão do Exército americano chamado Clark Vandersall Poling, ex-aluno da Yale Divinity School. Em 3 de fevereiro de 1943, em meio à Segunda Gerra Mundial, ele estava a bordo do navio cargueiro U.S.S. Dorchester, que transportava mais de novecentos homens, quando sofreu um ataque de torpedos. Era madrugada e eles estavam no mar gelado cheio deicebergs. Vinte e cinco minutos foram suficientes para afundar o navio e lançar no mar da magrugada fria os quase mil homens. A contagem de mortos foi de 678 homens – mais de dois terços do total. Entre eles havia quatro capelães, incluindo Clark Poling. Relatos dão conta de que os quatro cederam a outros os seus coletes salva-vidas e foram vistos pela última vez de mãos dadas orando pela segurança dos soldados. Tal atitude de bravura e abnegação fez com que os quatro capelães tivessem seus nomes e rostos estampados em selos, placas comemorativas, pinturas, vitrais e até em um monumento em homenagem a eles.

Atitudes como as desses capelães são lembradas e recontadas muitas vezes, muito tempo depois de acontecerem. Geram um misto de sentimentos nas pessoas como admiração, tristeza e agradecimento. A guerra, em meio às suas atrocidades, consegue destacar atitudes heróicas e desprendidas de homens que, mesmo mortos, dão bons exemplos e encorajam outros a darem o melhor de si. Por isso, nos muitos documentários que li e vi em vídeos, percebi que algo se repete como um eco. Muitos guerreiros, de volta às suas casas, costumam dizer duas coisas: a primeira é que “os verdadeiros heróis são aqueles que morreram nos campos de batalha”; a segunda é que são gratos a alguém que fez algo incrível por eles, às vezes dando a própria vida para salvá-los.

O rei Davi também era grato por ações de outro nas batalhas, a saber, ao próprio Deus. OSalmo 21 é um cântico de gratidão por ações ainda mais eficazes que as dos heróis guerreiros. Davi demonstra uma alegria contagiante ao lembrar o que Deus fez por ele. Por isso, o salmista inicia (v.1) seu cântico dizendo: “Senhor, o rei se regozija no teu poder e quão grande é a alegria no teu livramento!” (yehwâ be‘azzeka ismah-melek ûbîshû‘ateka mah-yageyl me’od). O rei em questão é o próprio salmista que, curiosamente, se refere a si mesmo na terceira pessoa (ele) por todo o salmo. Quanto à sua exultação, ela tem motivos bem definidos. Há, nesse salmo, pelo menos cinco ações de Deus que costumam produzir louvores nos seus servos.

A primeira delas é atender as orações. Davi diz (v.2) a Deus: “Concedeste-lhe os desejos do seu coração” (ta’awat livvô natattâ lô). Esse tipo de linguagem quase sempre está ligado não apenas aos desejos do servo, mas à sua oração por eles. É o caso desse exemplo. O salmista não apenas tem necessidades, mas pede a Deus que intervenha nelas. O pranto se torna riso quando Deus, não alheio à condição e aflição do servo, ouve a súplica do rei e a atende. A exultação de Davi está, portanto, no fato de o Senhor ter respondido seu pedido. Por isso escreve: “E não negaste o pedido dos seus lábios” (wa’areshet sefatayw bal-mana‘ta).

A segunda é agir com bondade. A palavra “pois” (), no início do v.3, demonstra que o que ele vai dizer a seguir está relacionado com o que já afirmou no verso anterior. É uma explicação que associa a resposta de Deus com sua bondade. O texto traz: “Pois leva-lhe bênçãos de bondade” (kî-teqaddemennû birkôt tov). É a ideia de alguém que deixa seu conforto para “sair ao encontro” de outro a fim de, especificamente, entregar-lhe coisas boas que são fruto de um coração benigno e amoroso. Não é de espantar que Davi, diante do Senhor dos senhores, que de ninguém precisa, fique alegre a agradecido por vê-lo agir desse modo. A visão da bondade de Deus se perfaz no resultado da ação: “Colocas sobre a sua cabeça uma coroa de ouro refinado” (tashit lero’shô ‘ateret paz). Esse é o vislumbre da vitória de Davi sobre seus inimigos e o reconhecimento público da sua entronização sobre Israel, tudo isso efetivado pelo Senhor.

A terceira ação é produzir alegria. Depois de os vv.4,5 corroborarem a visão das benesses de Deus sobre o rei, o v.6 explica que as “bênçãos de bondade” não foram dadas de modo transitório. Davi está extasiado diante do Senhor “pois lhe preparaste bênçãos perpétuas” (kî-teshitehû berakôt la‘ad). “Bênçãos sem fim” também é uma tradução possível para a expressão usada pelo salmista. Deus não foi parcimonioso com seu servo. Resolveu abençoá-lo e nada vai mudar tal desejo ou a aplicação da soberania divina. O resultado de uma ação desse porte é a resposta alegre de Davi. Na verdade, as bênçãos de Deus aqui descritas produzem, por si só, tal alegria. Portanto, Davi completa: “Encheste-lhe de alegria com a tua presença” (tehaddehû besimhâ ’et-paneyka).

A quarta ação de Deus que gera louvores é fortalecer os servos. Sempre que se fala de Davi, seja como rei, seja como salmista, seja como refugiado, precisa-se apontar sua constância como servo de Deus. Ele não era uma pessoa que agia de um modo quando tudo ia bem e de outro quando as coisas ficavam difíceis. Sua constância estava embasada na constância e na bondade do próprio Deus em quem esperava. Por isso, proclama o salmista (v.7): “O rei, pois, é alguém que confia no Senhor” (kî-hammelek boteah bayhwâ). Se isso é realidade enquanto escreve o salmo, sabe ele que também o será no futuro, pois acrescenta: “E com a fidelidade do Altíssimo ele não falhará” (ûbehesed ‘eleliôn bal-yimmôt).

Por fim, a quinta ação é vencer o mal. A confiança de Davi não é sem razão. Depois de andar toda sua vida na presença de Deus, aprendeu sobre o modo de ele agir contra aqueles que lhe são contrários. Assim, os inimigos de Deus, que também eram inimigos do seu servo, seriam alvo da mão punitiva do reto juiz. Na certeza de que mais uma vez tal seria a ação de Deus em seu favor, Davi se alegra desde já dizendo (v.8): “A tua mão cairá sobre todos quantos lhe são hostis; a tua destra atingirá aqueles que te odeiam” (timtsa’ yodkâ lekal-’oyebyeka yemîneka timtsa’ sone’eyka). Assim, tantos os “maus” como o “mal” que produzem encontrarão um fim nas mãos punitivas do santo Deus.

Não é pouco o que fez o Senhor por Davi para produzir nele todo o louvor e gratidão demonstrados nesse salmo. Na verdade, nem é pouco o que o Senhor tem feito pelos seus servos, incluindo a nós mesmos. O problema, muitas vezes, longe de estar nas mãos do Senhor, está nos olhos dos servos que deixam passar despercebidas atuações divinas tão grandiosas como essas. Quando os olhos dos servos, desprovidos de confiança e esperança, voltam-se apenas para as circunstâncias e dificuldades da vida e se afastam da bondade do Soberano, a benesse do Senhor não é notada. Isso cria crentes lamuriosos e descontentes.

Contudo, basta notar o que Deus tem feito e sido para seu povo. Basta ver o modo como responde suas orações, como age com bondade para com eles, a alegria que sua presença lhes causa quando mantêm comunhão, o modo como os fortalece e como os livra do mal. Essa observação produzirá, certamente, em todos nós que já entregamos a vida a Cristo e que pertencemos ao Senhor da igreja, a mesma conclusão (v.13) com a qual Davi encerrou o Salmo 21: “Cantemos e façamos músicas sobre a tua força” (nashîrâ ûnezammerâ gebûrateka). Em outras palavras, “louvemos e sejamos gratos ao nosso santo Deus”.

Pr. Thomas Tronco

sábado, 21 de maio de 2011

Salmo 20 - Tempo de Oração em Tempos de Crise

Duas histórias me marcaram dias atrás, ambas relacionadas com a prática da oração. A primeira delas é sobre Martinho Lutero. Dizem os estudiosos que Lutero foi um homem dedicado ao extremo à obra de Deus. Incansavelmente, desde o raiar do dia, ele investia horas a fio no estudo, tradução e comentários teológicos, produzindo um vasto material e um grande legado. Apesar de tantas obrigações autoimpostas, Lutero passava uma ou duas horas do dia orando. Curiosa mesmo era sua explicação para orar tanto tempo: “Eu oro muito porque tenho muita coisa para fazer”.

A segunda história tem como pano de fundo as atividades de uma comissão eclesiástica para a contratação de um pastor. Enquanto a comissão examinava o candidato sobre suas posições teológicas e sua experiência administrativa, uma senhora piedosa o interrogou a respeito de quanto tempo ele gastava em oração. Um silêncio profundo foi sentido até que outro membro da comissão explicou que o pastor, antes de pregar, dirigiu a igreja em oração por cerca de quatro minutos. A gentil senhora então explicou: “Não foi isso o que eu quis dizer. Eu quero saber quanto o senhor ora pela igreja, pelos membros e por você mesmo em seu tempo devocional”.

Essas duas histórias chamaram minha atenção, pois falam da oração feita em momentos em que se imagina que ela consome tempo e esforço necessários para tarefas “mais importantes”. As duas histórias nos lembram como esse conceito é falso e quanto a oração é necessária, inclusive – se não “principalmente” –, nos momentos mais atarefados e difíceis da vida.

O rei Davi é um bom exemplo, no Salmo 20, de priorização da oração em momentos difíceis. Ao que tudo indica, ele vivenciava a iminência de uma guerra. A batalha se aproximava e todos os preparativos deviam ser feitos: o deslocamento das tropas, a preparação das armas, a instrução dos comandantes, a organização das provisões, o encorajamento dos soldados e muitas outras tarefas imprescindíveis para enfrentar militarmente um inimigo. Tudo isso leva tempo e dá muito trabalho. Na verdade, exige empenho total, principalmente por parte do comandante nesse caso, o rei.

É nesse momento tão atarefado que Davi encontra tempo para orar, ou melhor, ele prioriza a oração. E não somente para ele, mas para todo o povo. O Salmo 20 é uma composição a fim de os israelitas se dirigirem a Deus em oração pedindo suas bênçãos sobre o exército e clamando por vitória para seu rei. O mesmo salmo parece servir como veículo para levar o povo da terra e os soldados a atitudes corretas diante de Deus a fim de, com a verdade em mente, cumprir cada um seu papel em consonância com a vontade do Senhor. Pelo menos três atitudes são incentivadas por Davi por meio do salmo que deveria ser repetido, em espírito de oração, pelo povo.

A primeira delas é a petição. O salmo inicia com o povo orando pelo rei (v.1): “Que o Senhor te atenda no dia perigoso. Que o nome do Deus de Jacó te defenda” (ya‘anka yehwâ beyôm tsarâ yesaggevka shem ’elohê ya‘aqov). Como o rei Davi lutou com o exército e o liderou no campo de batalha por boa parte da sua vida, o povo clama a Deus que lhe dê proteção diante do perigo de ser ferido na luta e para ser mantido seguro. A ideia é ser colocado em um lugar alto, como um pequeno filhote, para os predadores não o alcançarem. Apesar de haver um exército para proteger o rei, sem falar na sua guarda pessoal, o povo clama por um auxílio que vem de outra fonte que não soldados e generais. O pedido é (v.2): “Que envie ajuda para ti do santuário e de Sião te sustente” (yishlah-‘ezreka miqqodesh ûmitsîyôn yis‘adeka). A fonte da ajuda a Davi deveria vir do “santuário” e do “monte Sião”, ambos localizados em Jerusalém. Na verdade, essa é uma figura de linguagem para se referir àquele que era adorado no santuário e em Sião. É o Senhor Deus a fonte da proteção do seu servo na batalha. Esse tom de petição permanece até o final do salmo (v.9): “Preserve o rei, ó Senhor” (yehwâ hôshî‘â hammelek).

A segunda atitude é a submissão. Apesar de o desejo do povo, dos soldados e do próprio rei ser a vitória, sua petição se submete ao plano e ao desejo do Deus dos exércitos. Sua oração não age como se fosse um modo de convencer Deus a cumprir a vontade dos pedintes. Ao contrário, é um ato de confiança e de submissão àquele cuja vontade é boa (Rm 12.2) e cuja soberania é imbatível (Dn 4.35; Ef 1.11). Assim, eles oram (v.4): “Dê-lhe conforme o teu coração e cumpra todos os teus planos” (yitten-leka kilvaveka wekal-‘atsatka yemalle’). Essa é uma oração corajosa. Lógica também, pois se baseia na revelação das Escrituras de que Deus faz tudo conforme lhe apraz. Entretanto, é corajosa por abrir mão de decidir seu rumo confiando que os rumos do Senhor, coincidindo ou não com o dos solicitantes, são sempre os melhores. Portanto, não é uma coragem irresponsável, mas a confiança corajosa de quem conhece seu Senhor. Por isso, eles declaram (v.7): “Uns confiam nos carros e outros nos cavalos, mas nós invocaremos o nome do Senhor nosso Deus” (’elleh barekev we’elleh bassûsîm wa’anahnû beshem-yehwâ ’elohênû nazkîr).

A terceira é a gratidão. Mesmo parecendo extemporâneo, o povo, pela escrita de Davi, já fala de agradecimentos e louvores a Deus pela vitória. Devemos notar que não há aqui qualquer tipo de superstição do tipo “agradeça antes para que venha a acontecer”. O salmista conhece o modo de Deus agir nas situações da vida. Não era a primeira vez que Davi lutaria apoiado por Deus. Ele sabia como Deus o suportou no passado e como o sustentava agora. Portanto, depois de exibir confiança no Senhor, ele leva agora o povo a declarar sua gratidão a Deus e se preparar para louvá-lo na sequência da sua atuação em prol dos servos. Consequentemente, eles proclamam (v.5): “Celebremos nós pelo teu livramento e icemos a bandeira pelo nome do nosso Deus” (nerannenâ bîshû‘ateka ûbeshem-’elohênû nidgol).

Só então, depois de escrever um salmo, reunir o povo e levá-los a orar a Deus pedindo proteção e vitória para o rei e seu exército, é que os preparativos para a guerra encontram oportunidade de acontecer. A lição parece ter-se perpetuado, pois, Josafá mais de um século depois, ao receber a notícia de que três exércitos se aproximavam por um caminho inesperado e sem defesas (2Cr 20), estando a menos de um dia de Jerusalém , em lugar de se desesperar e correr atrás dos preparativos para a guerra, em primeiro lugar, se dobrou em oração perante o Senhor e levou o povo a fazer o mesmo (2Cr 20.3,4). O resultado foi uma vitória fantástica (2Cr 20.22-25).

Que exemplos como esses nos ensinem e nos motivem a buscar Deus, não apenas “apesar da falta de tempo”, mas, principalmente “por causa da falta de tempo”. Afinal, qual é o preparativo ou a providência que não vêm das mãos daquele que é soberano sobre tudo e que cuida com amor e zelo daqueles que lhe pertencem?

Pr. Thomas Tronco

Salmo 19 - A Grandeza da Revelação de Deus

Certa vez, entrando em um restaurante para jantar com minha esposa e minha filha, notei um grupo de pessoas conhecidas que também perceberam minha entrada. Com ouvido aguçado, escutei alguém do grupo dizer a outro que falasse mais baixo, pois eu estava próximo a eles. Qualquer que fosse o assunto, em lugar de intimidar o rapaz, esse alerta fez com que ele se virasse para mim – foi quando o reconheci – e dissesse em um tom alto de voz: “Não é verdade que isso está na Bíblia, Thomas?”. Ao perguntar a que ele se referia, a resposta foi: “... que em mulher não se bate nem com uma flor”. Diante do patente desconhecimento das Escrituras, só pude responder que, apesar de esse ditado popular não vir exatamente da Bíblia, eu realmente concordava com ele. Entretanto, o que me chamou mesmo a atenção foi perceber como as pessoas “acham” que sabem o que Deus revelou aos homens.

Davi sabia bastante sobre a revelação de Deus. Ele foi um salmista profícuo, o que quer dizer que passou uma boa parte do seu tempo dedicado à composição de salmos que, na verdade, são poesias e cânticos. É o autor que tem o maior número de composições no livro de Salmos. Entretanto, música e poesia parecem não ser as únicas habilidades da pena de Davi. Em termos de teologia ele abriu o caminho para grandes servos de Deus registrarem os aspectos mais profundos da revelação bíblica. Os apóstolos escritores citaram inúmeras vezes salmos de Davi e ensinaram à igreja dos seus dias – e dos nossos – diversos conceitos registrados pelo rei poeta um milênio antes deles.

O apóstolo Paulo, talvez o autor cujos escritos bíblicos sejam os de maior profundidade e importância teológica que temos, foi um dos escritores que citaram salmos davídicos em seus escritos. Um dentre os muitos temas abordados pelo apóstolo em suas cartas é aquele que fala sobre a própria revelação de Deus ao homem. Nesse sentido, Paulo apresenta dois meios que Deus utiliza para se revelar. O primeiro se dá por meio da Criação: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas...” (Rm 1.20). O segundo se dá por intermédio das Escrituras: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17). Os teólogos denominam esse dois meios da revelação divina de “revelação geral” e “revelação específica”, respectivamente.

Toda vez que se fala em revelação, citam-se esses dois textos escritos por Paulo. Entretanto, pouco mais de um milênio antes de o apóstolo registrar tais conceitos, o rei Davi fez o mesmo, sem economizar tinta, no Salmo 19. Esse cântico é o registro tanto da grandeza da verdade revelada por Deus aos homens como dos meios utilizados pelo Senhor para se fazer conhecido a nós.

Assim, em termos de revelação geral, Davi afirma (v.1): “Os céus anunciam a glória de Deus e a abóbada celeste torna conhecida a obra das suas mãos” (hashamayim mesafferîm kevôd-’el ûma‘aseh yadayw maggîd haraqîah). Deve-se notar o paralelismo sinônimo entre “céus” e “abóbada celeste” e, também, entre a ação de “anunciar” e de “tornar conhecido”, pois, seguindo esse raciocínio, percebemos que estão em paralelo, também, a “glória de Deus” e a “obra das suas mãos”. Tal percepção é importante para entender que o que Davi quer dizer com glória está relacionado à obra da criação – não que esse seja o único aspecto glorioso no Senhor. Essa é uma declaração de que tanto o ato da criação foi revestido de glória como o próprio Criador é glorioso. É também a afirmação de que a natureza gloriosa de Deus e da sua atuação pode ser deduzida pela observação do Universo. Afinal, somente um Deus glorioso e perfeito pode produzir uma obra tão perfeita e magnífica. Por isso, completa (v.4): “Sua voz foi ouvida em toda a Terra e suas palavras, na extremidade do mundo” (bekal-há'arets yatsa’ qôlam ûbiqtseh tevel millêhem).

Quanto à revelação específica, aquela que se dá por meio das Escrituras, tema muito abordado pelo rei salmista – tome-se como exemplo o Salmo 119 –, seu julgamento é categórico (v.7): “A lei do Senhor é perfeita” (tôrat yehwâ temîmâ). A partir dessa afirmação, Davi apresenta quatro ações da revelação de Deus nas Escrituras sobre os homens (vv.7,8): Ela é “quem recobra a alma” (meshîvat nafesh), “reforça a sabedoria do ingênuo” (ne’emanâ mahkîmat petî), produz “as alegrias do coração” (mesammehê-lev) e “traz luz aos olhos” (me’îrat ‘ênayim). Alento, sabedoria, alegria e o caminho correto são as bênçãos produzidas por aquilo que Deus revelou por meio dos profetas e apóstolos.

Mas, há que se fazer uma ressalva. Davi não tem em mente nenhum tipo de superstição como exibir em casa uma Bíblia aberta acreditando que, assim, a casa fica protegida e abençoada. O que Davi ensina, nesse salmo, é que tais bênçãos veem da leitura e aplicação dos ensinos de Deus pelos seus servos e que, assim (v.11), “há muita recompensa em cumpri-los” (beshamram ‘eqev rav). O salmista olha para essa esperança de modo aplicativo e pessoal, afirmando o que espera para si pela obediência às Escrituras (v.14): “Serei íntegro e limpo de muitas transgressões” (’êtam weniqqêtî miffesha‘ rav). Guiado pela sabedoria de Deus, sua mais profunda aspiração é: “Sejam aceitáveis diante de ti, Senhor, as palavras da minha boca e a meditação do meu coração” (yihyû leratsôn ’imrê-pî wehegyôn livvî lepaneyka yehwâ).

Portanto, o servo de Deus só pode ser guiado pelo seu Senhor se tomar e ler suas instruções, seu mapa para nossa vida. Em lugar de tentar adivinhar o que a Bíblia ensina ou, pior, querer colocar sob sua autoria o que ela nem sequer diz, cada pessoa deve lançar mão do privilégio de ter acesso à vontade de Deus expressa nas Escrituras. O conhecimento salvador contido na mensagem graciosa da cruz de Cristo e a perfeita ética cristã moldada pelo próprio Senhor só são acessíveis ao homem por meio da Palavra de Deus. Afinal, ditados e provérbios populares podem ser interessantes, corretos e até úteis, mas jamais podem tornar os homens aceitáveis ao santo e justo Senhor.

Pr. Thomas Tronco

sábado, 14 de maio de 2011

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Yom Hazikaron

Yom Hazikaron

Yom Ha'atzmaut ( hebraico : יום העצמאות yom ha-'aṣmā'ūṯ ) é o Dia da Independência de Israel, que comemora sua declaração de independência no ano 1948.Comemorado anualmente no dia 5 do mês judaico de Iyar, que gira em torno da declaração do estado de Israel por David Ben Gurion, o primeiro chefe de estado, em Tel Aviv no dia 14 de maio de 1948( 5 Iyar, ano de 5708 ), e marca também o fim do Mandato Britânico da Palestina.É sempre precedido pelo Yom Hazikaron, que lembra a memória dos soldados israelenses e das vítimas do terrorismo no dia 4 de Iyar.

As cadeiras vieram emprestadas de cafés vizinhos. Os microfones, de um empório musical. Dois carpinteiros chamados às pressas ergueram o palco de madeira em tempo recorde. Um retrato do pioneiro sionista Theodor Herzl foi colocado em posição de destaque no salão principal, ladeado por duas bandeiras gigantes com a estrela de Davi (símbolo ancestral do povo judeu), lavadas e passadas de forma expedita para a ocasião. Em um piscar de olhos, o Museu Nacional de Tel-Aviv transformou-se para sediar uma cerimônia aguardada pelos hebreus há exatos 1.878 anos – desde que a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., acabou com a soberania dos judeus em Jerusalém e deu início à segunda diáspora dos seguidores de Isaac. No compromisso deste 14 de maio de 1948, porém, a história seria finalmente reescrita: a terra prometida estava voltando às mãos dos judeus.

Os convites para a reunião, marcada para as 16 horas, foram impressos na véspera e distribuídos apenas na manhã do dia do evento, com um pedido de segredo aos cerca de 250 convidados para evitar qualquer interferência externa. Entre os locais, porém, foi impossível segurar a alvissareira notícia, que rapidamente se espalhou por Tel-Aviv e levou, já por volta do meio-dia, uma multidão a cercar o local da congregação. De qualquer forma, poucas horas depois de o mandato britânico na Palestina ter se encerrado, sem maiores sobressaltos, em uma cerimônia célere, demarcada pelas firmes batidas do martelo de nogueira de David Ben-Gurion, presidente do Conselho Provisório de Estado sionista, a criação da nação judaica na Palestina – o estado de Israel – foi solenemente anunciada aos quatro ventos.

Lida por Ben-Gurion e assinada pelos 24 dos 37 membros da assembléia presentes ao histórico evento, a declaração de independência do mais novo país do globo buscou no passado histórico e no presente político as bases morais e legais para sua fundação. O documento notificava que a Terra de Israel era o local de nascimento do povo judeu e que o movimento sionista era testemunho do papel representado pela Palestina em sua história e religião. Dizia também que a declaração de Balfour e a partilha das Nações Unidas, além do sacrifício dos pioneiros sionistas e da tormenta sofrida com o Holocausto, davam aos judeus o direito inalienável de estabelecer seu estado no Oriente Médio. A cerimônia, transmitida pela Kol Yisrael, "a voz de Israel", tornada rádio oficial do novo estado sionista, provocou uma explosão incontida na população hebraica em todos os rincões da Palestina. Enquanto dentro do Museu Nacional de Tel-Aviv o público, emocionado, entoava a plenos pulmões a Hatikvah (tradicional canção judaica que celebra a esperança), do lado de fora do recinto, assim como em diversas cidades da nova nação – à exceção de Jerusalém, que se encontrava sem eletricidade –, populares ganhavam as ruas para congratular-se uns aos outros.

(Artigo escrito pela Revista Veja Maio de 1948)

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Salmo 18 - O Dia da Libertação Que Vem do Senhor

Recentemente, em uma disputa presidencial em nosso País, alguns candidatos, desejosos de angariar votos entre os evangélicos, foram a diversas igrejas, leram textos bíblicos, falaram sobre religião e até oraram. Quem os via tinha a impressão de que eram servos do Senhor de longa data e tinham, na pessoa de Deus, seu interesse primário em termos de obediência. Entretanto, as eleições aconteceram e definiram-se o vencedor e o perdedor. Ambos agradeceram, de público, a seus partidos, seus eleitores, seus cabos eleitorais e até seus secretários particulares, mas não deram qualquer palavra de agradecimento a Deus. O Senhor foi apenas um pretexto, durante breve tempo, para se fazer campanha entre certo grupo de eleitores. Nem mesmo quem saiu vitorioso deu uma palavra de reconhecimento àquele que institui as autoridades (Rm 13.1) e escolhe o líder a quem quer revestir de poder (Dn 4.17,25).

Na verdade, esse tipo de ingratidão é muito comum. Quem de nós, depois de ajudar alguém em problemas, nunca foi completamente esquecido depois da solução dos males? Entretanto, Davi não agia desse modo e o Salmo 18 é a prova disso. Trata-se de um salmo muito interessante devido ao seu registro, praticamente idêntico, em 2Sm 22. Em ambas as referências, o contexto da composição do salmo por Davi é descrito: “O dia em que o Senhor o livrou de todos os seus inimigos e das mãos de Saul”. Diante de tão grande bênção, sabendo quantas vezes Davi orou pedindo por libertação dos inimigos, o salmista demonstra atitudes que realmente são necessárias ao servo de Deus quando tem sua oração atendida.

Em primeiro lugar, Davi valoriza seu relacionamento com Deus. É comum as pessoas se esquecerem de Deus e até abandonarem a igreja quando seus problemas são resolvidos. Isso não aconteceu com Davi porque seu relacionamento não era fundamentado nos seus interesses, mas no seu amor. Ele inicia o salmo dizendo (v.1): “Senhor, eu te amo, ó minha fortaleza” (’erhomka yehwâ hizqî). Dito isso, Davi usa, novamente, o sufixo hebraico de pronome possessivo “meu” por sete vezes no v.2 em referência a Deus. Entre elas, chama o Senhor de “meu Deus” (‘elî). Ele diz “meu” porque tem um relacionamento pessoal com ele; e diz “meu Deus” porque tal relacionamento se baseava, por um lado, na soberania de Deus e, por outro, no seu amor pelos servos.

Davi também se lembra dos feitos de Deus a seu favor. Essa lembrança, obviamente, envolve também seu sofrimento passado, incluindo o risco de ser morto (vv.4,5). Ele recorda sua angústia que o levou, em prantos, à busca de Deus por meio da oração (v.6). Então, em uma virada no tom da sua pena, o salmista contempla a recordação do Senhor atendendo seu pedido, o que ele assim descreve: “Do seu templo o Senhor ouviu a minha voz e o meu grito a ele por socorro chegou aos seus ouvidos” (yishma‘ mehêcalô qôlî weshaw‘atî lepanayw tabô’ be’oznayw). A partir de então (vv.7-19), ele se lembra do que Deus fez em termos figurados que dão um tom vivo à incrível e poderosa libertação do servo e vitória de Deus sobre seus inimigos. Nada escapa da sua memória.

Ele, ainda, reconhece sua condição de fraqueza. No v.17, ao declarar a ação divina na sua libertação, o salmista relata que foi salvo de alguém que nomeia de “meu inimigo forte” (’oyebî ‘az). Obviamente, ao citar esse inimigo na forma singular seguido do complemento no plural “e dos que me aborreciam”, Davi tem em mente, como “inimigo forte”, o rei Saul que o perseguiu com toda ira e com seu poderio militar durante muito tempo. Apesar de ser comum os homens se sentirem “poderosos” quando se veem livres de um mal, Davi não age assim. Ele reconhece sua fraqueza ao explicar que seus inimigos “eram mais fortes do que eu” (’omtsû mimmennî). Esse vislumbre impede que ele se sinta como quem deu fim ao problema, esquecendo-se de glorificar o verdadeiro responsável pelo bem – Deus.

Davi, mesmo diante do alívio, permanece cumprindo a vontade do Senhor. Diferente de pessoas que se aproximam de Deus quando têm problemas e se afastam quando são socorridas, Davi continua na mesma atitude de submissão a Deus e às Escrituras. Podemos perceber tal disposição na afirmação do v.21 em que Davi apresenta seu procedimento reto: “Eu guardei as palavras do Senhor e não reneguei o meu Deus” (shamartî darkê yehwâ welo’-rasha‘tî me’elohay). O modo de Davi se expressar não é pesaroso como se olhasse para uma realidade que se foi, mas com a confiança de que tal afirmação ainda pode ser notada no seu procedimento. Ele permanece obedecendo a Deus e agindo com retidão e santidade.

Depois de narrar vividamente como o Senhor o abençoou pela sua justa instrução e como o fez vencedor dos inimigos (vv.25-45), Davi louva ao Senhor pela sua grandeza. Ele exulta (v.46) e diz: “Exaltado é o Deus da minha salvação” (yarûm ’elôhê yish‘î). A palavra traduzida como “exaltado” dá a ideia de alguém “levantado ao alto”. Assim, Davi reconhece que Deus é tremendamente superior a tudo que existe, tanto que o eleva em seu louvor declarando sua glória. Nesse caso, a tradução “seja exaltado” cumpre o papel de glorificar aquele que ouviu as orações de Davi e o salvou de inimigos mais fortes e mais numerosos que ele.

Durante a exaltação ao Senhor, o salmista testemunha daquilo que lhe fez o Senhor. Ele diz (v.49): “Portanto, eu o aclamarei, Senhor, entre as nações” (‘al-ken ’ôdeka baggôyim yehwâ). Assim, Davi reconhece publicamente as ações de Deus em seu favor e lhe agradece em meio ao louvor. Esse grato testemunho produz salmos, como este, cantados diante de ouvintes a quem o salmista dá testemunho da grandeza de Deus. Tal desejo é afirmado na oração: “Faça eu cânticos ao teu Nome!” (leshimka ’azammerâ).

Essas são as atitudes de Davi no dia em que foi liberto por Deus dos seus inimigos. Entretanto, elas são consequências de uma vida transformada pela fé, pelo relacionamento íntimo com o Senhor e pelo tratamento da Palavra de Deus sobre o salmista. Ele é grato a Deus porque também é amigo de Deus, servo de Deus e beneficiário da graça de Deus. Quanto aos candidatos que vimos por aí, Deus é somente pretexto para seus propósitos, assim como o é para muita gente que “o busca” somente quando lhes interessa. E quanto a você: quer ser um candidato interesseiro, ou quer ser um amigo daquele que ama e age em prol dos seus servos?

Pr. Thomas Tronco

Salmo 17 - A Busca de Uma Justiça Superior

Um episódio marcante na história americana foi o julgamento, no século 19, envolvendo os “passageiros” do navio L’Amistad (“A amizade”, em espanhol). Eram escravos provenientes da África cujo destino era serem vendidos em Cuba. Liderados em um motim por Cinque, 53 escravos mataram quase toda a tripulação e obrigaram dois sobreviventes a levá-los de volta à África. Desconhecedores de princípios de navegação, não perceberam que foram, na verdade, conduzidos à costa dos Estados Unidos, onde, em agosto de 1839, a guarda costeira os deteve. Foram levados a um tribunal, acusados de homicídio, enquanto os sobreviventes da tripulação, a coroa espanhola e oficiais americanos reclamavam a posse dos escravos a fim de vendê-los. As coisas se complicam ainda mais à medida que as eleições presidenciais se aproximavam e ameaçam afetar o resultado do julgamento com motivações políticas.

Diante de tantos fatores externos e tantos interesses espúrios, o julgamento dos 53 passageiros do L’Amistad tinha tudo para contrariar todos os conceitos de “justiça”. Nesse momento, o ex-presidente John Quincy Adams, recorrendo à Suprema Corte dos Estados Unidos, lutou para que a justiça garantisse a liberdade e a recolocação daqueles homens ao seu país. O resultado final, já no ano de 1841, foi a confirmação da decisão do primeiro julgamento no sentido de libertá-los e entregá-los ao presidente para que os conduzisse de volta à África, declarando os 53 negros livres e dispensando-os imediatamente da custódia da corte. Certamente, essa decisão deu novos rumos à aplicação da justiça e à história norte-americana. É também uma decisão inspiradora, pois, a despeito de todos os interesses políticos e financeiros, a justiça realmente prevaleceu.

O rei Davi também recorreu à justiça suprema – não de uma corte, mas do supremo juiz. O Salmo 17 é um clamor por justiça diante dos fatos apresentados pelo salmista. Sua petição é “Senhor, ouça o que é justo! Escuta o meu clamor! Ouça a minha oração!” (shim‘â yehwâ tsedek haqshivâ rinnatî ha’azînâ tefillatî). É um clamor à suprema corte, ao único que pode decidir justamente e fazer valer a decisão.

A partir de então, as provas apresentadas pelo requerente, Davi, são, em primeiro lugar, seu procedimento justo. Não significa que ele nunca pecasse, mas que buscava obedecer ao Senhor e andar em consonância com sua santidade, fosse pela luta contra o pecado, fosse por meio da busca do perdão divino. Assim, ele diz (v.1) que sua causa “não vem de lábios mentirosos” (belo’ siftê mirmâ). Diz ao Senhor (v.3): “Não encontras maldade nos meus intentos; a minha boca não transgride” (bal-timtsa’ zammotî bal-ya‘avar-pî). Ele completa o quadro (v.4) afirmando: “Eu me guardei dos caminhos do violento” (’anî shamartî ’orhôt parîts). Essa é a descrição de um servo dedicado ao Senhor cujos procedimentos são moldados pelo bem e pela retidão. O que fala é verdadeiro; seus propósitos mais secretos são isentos da maldade; suas palavras são retas e produzem o bem e não atitudes traiçoeiras; suas atitudes são pacíficas e dignas de um homem cuja ética é santa.

Em segundo lugar, as provas apresentadas pelo requerente são os pecados dos seus inimigos que o perseguem e procuram uma oportunidade para matá-lo (vv.8,9). Davi diz (v.10) que “eles endureceram sua boca; falaram com arrogância” (helbamô sogrû pîmô dibberû bege’ût). Mas não é só isso. Davi ainda afirma que “os olhos deles estão postos [sobre os inimigos] para que caiam por terra” (‘ênêhem yashîtô lintôt ba’arets). Finalmente, para fins ilustrativos, Davi fala deles por meio de uma comparação (v.12), dizendo que “eles são semelhantes ao leão ávido para dilacerar a presa” (dimyonô ke’aryeh yikkôf litrôf). Esse é, definitivamente, um quadro de homens orgulhosos, mentirosos, perigosos, cujas ações contra aqueles que consideram inimigos são destruidoras.

Assim, Davi, com as provas sobre a mesa, apresenta (v.13) sua solicitação ao reto juiz: “Livra minha alma dos ímpios pela tua espada” (palletâ nafshî merasha‘ harbeka). Essa é a causa do solicitante. Ele, mediante a apresentação dos seus retos caminhos, condição necessária para o clamor por justiça, e da perversidade dos seus inimigos, pede para que Deus o proteja de tais homens maus. É a última instância da justiça, visto que, ao que parece, ninguém mais pode ajudar Davi.

O fato é que o salmo não especifica a resposta do divino juiz. É bem possível que o salmo tenha sido escrito enquanto a perseguição ocorria, antes do livramento almejado pelo salmista. Os inimigos ainda perseguiam e Davi ainda esperava pela libertação. Entretanto, enquanto espera e sofre com a injustiça, o salmista demonstra uma atitude exemplar que deve inspirar todos os servos do Senhor ainda hoje. Ele diz (v.15): “Ao acordar, eu me satisfarei com o teu semblante” (’esbe‘â behaqîts temûnateka). Essa oração, um pouco misteriosa e intrigante, revela que o salmista, mesmo que ainda não tenha sido aliviado do seu jugo, sente-se suficientemente feliz e grato por ter “comunhão com Deus”, como se pudesse vê-lo face a face. Davi realmente desfrutava a presença do Deus vivo e isso lhe bastava, ainda que nutrisse a esperança do livramento.

Essa atitude exemplar de Davi não é gratuita. Ele conhece o Senhor a quem serve. E mais: ele ama seu Senhor e sabe muito bem que por ele é amado. Tem a perfeita noção do que tal relacionamento significa para sua vida presente e futura. De fato, temos de aprender com Davi e nutrir maior deleite no relacionamento com Deus a despeito de tudo que nos cerca. Afinal, o Senhor Deus é alguém com quem se pode ter a verdadeira e perfeita amistad.

Pr. Thomas Tronco