sexta-feira, 25 de março de 2011

Salmo 8 - Uma Profunda Destruição


Quem nunca recebeu, por e-mail, aquelas mensagens que correm a Internet nos fazendo rir com “pérolas” da educação moderna? Recebi, certa vez, uma dessas mensagens que sempre me fazem rir quando as releio. Segundo quem enviou, trata-se de frases retiradas de uma redação, requisitada na prova do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2008, sobre o “aquecimento global”. Entre as pérolas há frases como estas: Vamos nos unir juntos de mãos dadas para salvar o planeta”; “Animais ficam sem comida e sem dormida por causa das queimadas”; “A Amazônia tem valor ambiental ilastimável”; “Os dismatamentos é a fonte de inlegalidade e distruição da froresta amazônia” (sic). Parece até piada...

Absurdos – e risadas – à parte, uma das frases me deixou pensativo: “A Amazônia está sofrendo um grande, enorme e profundíssimo desmatamento devastador, intenso e imperdoável”. Esse é um exemplo de redundância em grau máximo. Entretanto, ele reflete um pouco da realidade das nossas matas e da nossa fauna. Quando observamos o tamanho da destruição da natureza, essa frase, uma aberração para a língua portuguesa, não nos parece tão distante da verdade em termos da geografia e biologia. A destruição tem sido, sim, profunda, devastadora e intensa.

Isso é muito triste, principalmente quando nos recordamos da fonte da natureza. Ela não é produto do acaso; não é consequência de uma explosão; não é efeito colateral de um caos no Universo. Ela é obra das mãos criativas do Senhor. Um salmista escreveu: “Sede benditos do Senhor, que fez os céus e a terra” (Sl 115.15). Não obstante, o Criador de tudo colocou o homem à frente de tudo o que há na terra: “Os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a ele aos filhos dos homens” (Sl 115.16). O verbo “dar”, do hebraico natan, significa também “entregar” ou “consignar”. Assim, ainda que toda a terra pertença ao Senhor, ele cedeu aos homens o direito de usufruir dela e o dever de cuidar da propriedade divina.

Olhando para a relação entre Deus e homens e entre os homens e a natureza, o Salmo 8 tem coisas interessantes a nos dizer. Em primeiro lugar, o homem, diante de Deus, nada é. Davi, vendo a criação divina, olha para o homem e diz: “Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, e a lua e as estrelas que estabeleceste, que é o homem, que dele te lembres? E o filho do homem, que o visites?” (vv.3,4). Parece que Davi considerava a grandeza da criação de Deus como algo tão maravilhoso a ponto de nublar a própria existência do homem. Entretanto, de maneira surpreendente, Davi afirma, sobre a condição do homem: “Fizeste-o, no entanto, por um pouco, menor do que Deus e de glória e de honra o coroaste” (v.5). A conjunção adversativa wa (w^), traduzida aqui por “no entanto”, demonstra a distância entre a dignidade do homem como criatura e a dignidade conferida por Deus a ele. É a enorme distância entre o que deveríamos ser e o que somos.

Em lugar de sermos meras criaturas como o restante, fomos revestidos de dignidade e responsabilidade tal que nos separou do restante da criação. Quanto a ela, foi-nos dada a fim de termos “domínio”: “Deste-lhe domínio sobre as obras da tua mão e sob seus pés tudo lhe puseste: ovelhas e bois, todos, e também os animais do campo; as aves do céu, e os peixes do mar e tudo o que percorre as sendas dos mares” (vv.6-8). A palavra mashal não significa apenas “dominar”, mas “reger” e “reinar”. É possível que a tradução “domínio” nos faça imaginar o uso cruel e egoísta da natureza. Mas esse não é o caso. O homem não recebeu de Deus o direito de usar a natureza como bem entender, mas, sim, o dever de, como um rei, reger o que lhe foi posto como direito de usufruir e dever de zelar. E a história está cheia de bons reis que chegaram a abrir mão dos seus direitos e até do seu bem-estar pelo bem do seu reino. Esses foram consagrados como bons reis. Como dominantes da criação de Deus, temos o dever de cuidar do que pertence ao Senhor e que nos foi confiado.

Portanto, o desvio do comportamento humano no sentido de destruir a natureza, em lugar de conservá-la, se deve ao fato de ser pecador. Somente quando o homem é transformado da sua condição de pecador para a condição de filho da Luz é que, também, pode haver mudança nos seus atos em relação ao restante da criação de Deus. Assim, em última instância, não é do Green Peace ou do Sea Shepherd que precisamos a fim de proteger o planeta, mas de missionários e evangelistas comprometidos em causar transformação, por meio da pregação do Evangelho, nos corações dos pecadores. Desse modo, por meio da atuação do Espírito Santo, pode haver, de modo completo e abrangente, a formação de novos seres, cujas vidas darão frutos dignos das mais belas árvores criadas por Deus.

Pr. Thomas Tronco

Salmo 7 - A Necessidade de um Juiz Reto

Ultimamente, as coisas estão do avesso. Bandidos andam impunemente pelas ruas, enquanto cidadãos de bem ficam presos em suas casas. Pessoas de bem são ameaçadas por quem as deveria proteger. Homens honestos são roubados por pessoas que deveriam garantir a justiça, principalmente aos mais fracos.

Quando isso acontece, mesmo desacreditados a respeito da eficácia do sistema, as pessoas que foram injustiçadas procuram os responsáveis por garantir que a retidão e os direitos dos cidadãos sejam cumpridos. Mas, é aí que começa uma parte triste da história de muita gente. A justiça, que se espera vir de órgãos criados para esse fim, às vezes não chega, seja por corporativismo, corrupção ou por desigualdade de condições financeiras entre as partes, seja por meio da morosidade e da burocracia presentes nos veículos da justiça.


Tenho de ser honesto: é uma visão desalentadora. Confesso que não acredito mais na justiça promovida pelos homens, apesar de saber que há uma parcela de pessoas comprometida com a verdade e com a honestidade.


No meio da minha desilusão, vêm-me à mente o
Salmo 7. Ele foi escrito após Davi ser acusado injustamente por alguém chamado Cuxe. Alguns comentaristas acreditam se tratar de alguém desconhecido, enquanto outros arriscam ser ele Simei (2Sm 16.5-13), ou o próprio Saul, cujo pai se chamava Quis (1Sm 9.1,2). Independente de quem seja, o fato de ser “benjamita” nos dá, como pano de fundo, a inimizade injustificada de Saul por Davi e as diversas tentativas de assassinato por parte do rei contra o jovem que, tudo que fez, foi servir ao Senhor e a Israel com fidelidade. Seja Cuxe quem for, ele estava alinhado com a desmoralização e perseguição de Davi com base em interesses escusos.

Diante dessa situação, sem se perder no desespero e na lamúria, Davi olha para o Senhor e diz:
“Em ti me refugio” (v.1). Davi usa o mesmo verbo, hasah, que usou no Salmo 36.7 para dizer que “os filhos dos homens se acolhem à sombra das tuas asas”. Traz a ideia de alguém indefeso, como um filhotinho de ave, buscando abrigo e consolo sob as asas da sua grande e decidida mãe. Afinal, quem nunca viu uma galinha enfrentando quem quer que seja para proteger seus pequeninos? Era assim, e com essa confiança, que Davi olhava para Deus. Isso justifica o pedido de Davi: “Salva-me de todos os que me perseguem e livra-me, para que ninguém, como leão, me arrebate, despedaçando-me, não havendo quem me livre” (vv.1,2).

Essa esperança, contudo, não se baseava apenas em um tipo de otimismo ou em expectativas infundadas. Davi, que sabia qual era o tipo de poder que Deus possui, também conhecia a retidão dos seus juízos. Se Davi sofria injustiça diante de Cuxe e de outros benjamitas, o Senhor saberia julgar corretamente a situação e dar “ganho de causa” a quem de direito. Davi diz a Deus:
“Se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniqüidade, se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia, persiga o inimigo a minha alma e alcance-a, espezinhe no chão a minha vida e arraste no pó a minha glória” (vv.3-5). Ao apresentar seu caso a Deus, Davi afirma sua retidão diante das falsas acusações e da perseguição e lembra seus atos justos, como, provavelmente, o de poupar Saul quando teve chance de matá-lo. O motivo para isso é que ele sabia que Deus conhecia tais fatos e saberia agir com sabedoria e retidão para com ele. Assim, recorrendo ao Senhor de toda justiça, Davi pede “desperta-te em meu favor” (v.6).

Com o rumo que as coisas têm tomado em nosso país e no mundo, principalmente no que tange à perseguição contra o cristianismo verdadeiro, é bem possível que a mesma oração de Davi deva ser feita por nós. Mas, se e quando o fizermos, que seja com a mesma atitude, em primeiro lugar confiante e, em segundo, com as mãos limpas de quem segue as palavras do Mestre.


Sendo assim, descansemos. Afinal, se uma pequena galinha pode dar conforto e proteção aos seus filhinhos, o que poderá o Senhor eterno, Rei dos reis, fazer por nós, seus filhos por quem enviou e entregou à morte o Senhor Jesus Cristo?


Pr. Thomas Tronco

segunda-feira, 14 de março de 2011

FESTA DE PURIM

PARTE 2

O rei não conseguia dormir

No começo do capítulo 6, ficamos sabendo que o rei, a quem o cetro fora concedido, não estava conseguindo dormir à noite. Se o rei tivesse conseguido dormir, Mordecai provavelmente teria sido executado e Hamã teria conseguido agir com autoridade. Mas Deus não havia planejado as coisas assim. Primeiro era necessário que Mordecai fosse poupado, e que o orgulhoso Hamã fosse humilhado e preparado para sua própria execução.

Quando foram lidas as crônicas diante do rei insone, achou-se escrito que certa vez Mordecai tinha salvado a vida de Assuero. Então o rei perguntou: “Que honras e distinções se deram a Mordecai por isso?” (Ester 6.3). Semelhantemente aos nossos dias, esse fato havia-se perdido em meio à burocracia do reino: “Nada lhe foi conferido” (v. 3), foi a resposta do servo.

Nesse caso, a insônia fez com que o rei ficasse alerta. Ele não agiu irracional e irresponsavelmente como fez quando deu ouvidos ao argumento de Hamã a respeito da aniquilação do povo judeu.

Uma observação pessoal: talvez a solução para sua insônia não esteja em remédios, visitas a médicos ou terapeutas. Pode ser que a hora da sua insônia seja um tempo em que Deus deseja falar com você. Sei que muitos sofrem de uma ou mais das inúmeras causas físicas ou emocionais que podem causar insônia. Mas em certas ocasiões não há razão para ela; você simplesmente não consegue dormir. Essa é uma hora ideal para se ocupar com o seu Criador; abra o livro, o Seu livro, e perceba que Ele salvou a sua vida. Você escapou de uma eternidade perdida e sem Deus para a presença na mansão real. Que honra foi dada a Ele que lhe salvou? Ele fez com que nossas Bíblias fossem escritas para que pudéssemos entender Suas intenções. Em suas páginas você encontrará uma declaração de amor: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16). Você já ofereceu uma resposta a essa oferta? Se ainda não, faça-o hoje.

Você já leu a acusação que Jesus fez às pessoas de Jerusalém: “Nunca lestes nas Escrituras...?” (Mateus 21.42)? Você quer saber sobre o futuro? Use a sua insônia para ler mais sobre ele e então reaja ao que tiver lido através de uma conversa com Jesus. Ninguém nunca orou tanto como Jesus; Ele passava noites inteiras em oração. Durante Seus últimos dias, Ele teve que repreender Seus discípulos: “Então, nem uma hora pudestes vós vigiar comigo?” (Mateus 26.40). Pode muito bem ser que Deus providenciará essa insônia para que você tome uma posição sacerdotal em favor daqueles que estão por perecer. Vidas estão em jogo! Conforme Apocalipse 1.6, Jesus, “nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai”. Seja como a rainha Ester, que estava pronta a abrir mão de sua vida para ir à presença do rei e interceder sacerdotalmente pelo seu povo. Você fará isso hoje?

A confiança que o rei tinha em Hamã era impressionante. Parece que, coincidentemente, Hamã estava no átrio do palácio do rei, pronto para pedir permissão para enforcar Mordecai na forca que já havia preparado. Naquele exato momento, o rei o chamou e perguntou: “Que se fará ao homem a quem o rei deseja honrar?” (Ester 6.6). Com presunção, cegueira espiritual e o coração cheio de ódio, Hamã só conseguia pensar que ele era esse homem a quem o rei tinha o desejo de honrar. Por isso, disse sem hesitar: “tragam-se as vestes reais, que o rei costuma usar, e o cavalo em que o rei costuma andar montado, e tenha na cabeça a coroa real; entreguem-se as vestes e o cavalo às mãos dos mais nobres príncipes do rei, e vistam delas aquele a quem o rei deseja honrar; levem-no a cavalo pela praça da cidade e diante dele apregoem: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar” (Ester 6.8-9). O rei sabia que Mordecai era judeu? Ele sabia que Hamã o odiava? A ordem do rei para Hamã foi a pior coisa que lhe poderia ter acontecido. Ele estava tão confiante em sua vitória que o orgulho lhe subiu à cabeça. Agora, porém, ele teria que desfilar pela cidade falando para as pessoas que Mordecai era o homem que o rei se alegrava em honrar. Os cidadãos de Susã estavam indubitavelmente confusos. Eles ficaram chocados com a proclamação de que todos os judeus deveriam ser mortos em determinado dia. Certamente eles sabiam que tinha sido Hamã quem havia expedido tal ordem. No entanto, agora ele estava levando Mordecai montado em um dos cavalos do rei, elogiando-o em alta voz, para todos ouvirem.

Assim que retornou ao palácio, “Hamã se retirou correndo para casa, angustiado e de cabeça coberta” (Ester 6.12). Aí ele recebeu notícias ainda piores: “Então, os seus sábios e Zeres, sua mulher, lhe disseram: Se Mordecai, perante o qual já começaste a cair, é da descendência dos judeus, não prevalecerás contra ele; antes, certamente, cairás diante dele” (Ester 6.13). Com certeza, o povo de Susã já estava familiarizado com os judeus. Eles viviam juntos na mesma cidade que abrigava as sinagogas onde os judeus se reuniam. Eles trabalhavam para se sustentar. Alguns eram bem-sucedidos e contratavam outros, criando empregos. Não temos razão nenhuma para acreditar que os judeus daquela época em Susã eram diferentes dos de hoje. A frase “Se Mordecai... é da descendência dos judeus...”, indica que eles eram respeitados e conhecidos pela sua adoração ao Deus invisível e pelo estudo da Sua Palavra.

Hamã havia articulado uma estratégia infalível, e a aniquilação dos judeus estava certa; apenas um curto período de tempo os separava da vida e da morte. Eles também sabiam que a lei outorgada pelo rei não poderia ser revogada. Uma vez que a lei fora sancionada com o selo real, ela tinha que ser aplicada. Isso indica claramente que o governo medo-persa era de qualidade muito superior às formas de governo que temos hoje. Agora, os políticos podem prometer muitas coisas aos seus eleitores, mas quando são eleitos eles não são obrigados, por lei, a manter suas promessas. Portanto, compreendemos que das quatro potências gentílicas – Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma – a última é a inferior. No livro de Daniel, capítulo 2, vemos a composição das quatro potências mundiais: Babilônia, representada pelo ouro; Medo-Pérsia, prata; Grécia, cobre; e Roma, ferro e barro. Portanto, a inferioridade de todos os governos após a Babilônia e a Medo-Pérsia é evidente.

Hamã nem tinha bem terminado de ouvir as terríveis notícias de sua própria esposa e de seus conselheiros quando uma mensagem urgente do rei o interrompeu: “Falavam estes ainda com ele quando chegaram os eunucos do rei e apressadamente levaram Hamã ao banquete que Ester preparara” (Ester 6.14).

Hamã é desmascarado

Esse banquete privado que a rainha Ester havia preparado era realmente muito especial. O convidado de honra era Hamã, e pela terceira vez o rei perguntou: “Qual é a tua petição, rainha Ester?” (Ester 7.2). Aí, outra revelação devastadora foi feita: “Então, respondeu a rainha Ester e disse: Se perante ti, ó rei, achei favor, e se bem parecer ao rei, dê-se-me por minha petição a minha vida, e, pelo meu desejo, a vida do meu povo. Porque fomos vendidos, eu e o meu povo, para nos destruírem, matarem e aniquilarem de vez; se ainda como servos e como servas nos tivessem vendido, calar-me-ia, porque o inimigo não merece que eu moleste o rei” (Ester 7.3-4). O rei Assuero, que havia depositado sua total confiança em Hamã, aparentemente não tinha investigado coisa alguma sobre as origens da rainha Ester. Ele não sabia que ela era judia. “Então, falou o rei Assuero e disse à rainha Ester: Quem é esse e onde está esse cujo coração o instigou a fazer assim?” (Ester 7.5). De forma triunfante, Ester havia chegado ao ponto final de seu plano. Essa frágil e bonita mulher, que arriscou sua vida para salvar seu povo, agora tinha a atenção do rei, a maior autoridade naquela terra. “Respondeu Ester: O adversário e inimigo é este mau Hamã. Então Hamã se perturbou perante o rei e a rainha” (Ester 7.6).

Hamã tinha toda a razão de estar com medo. Agora esse homem, que antes fora tão ousado e corajoso, revelou-se um covarde: “Hamã, porém, ficou para rogar por sua vida à rainha Ester, pois viu que o mal contra ele já estava determinado pelo rei” (Ester 7.7). O fim de Hamã tinha chegado; não havia mais chance para misericórdia: “Tendo o rei dito estas palavras, cobriram o rosto de Hamã” (Ester 7.8). Um homem condenado não poderia mais olhar para a face do rei. A forca que Hamã havia construído para matar Mordecai, o judeu, tornou-se instrumento de sua própria execução: “Enforcaram, pois, Hamã na forca que ele tinha preparado para Mordecai. Então, o furor do rei se aplacou” (Ester 7.10).

O último pedido da rainha Ester

Hamã foi executado e Mordecai foi exaltado. Contudo, os problemas do povo judeu no reino ainda não estavam resolvidos.

Novamente, Ester arriscou sua vida: “Falou mais Ester perante o rei e se lhe lançou aos pés; e, com lágrimas lhe implorou que revogasse a maldade de Hamã, o agagita, e a trama que havia empreendido contra os judeus” (Ester 8.3). Novamente, “estendeu o rei para Ester o cetro de ouro...” (Ester 8.4). Esse era o sinal da graça, e agora ela poderia novamente apresentar seu caso em favor do seu povo: “...escreva-se que se revoguem os decretos concebidos por Hamã, filho de Hamedata, o agagita, os quais ele escreveu para aniquilar os judeus que há em todas as províncias do rei” (Ester 8.5). Mas havia um problema: o rei não poderia conceder esse último desejo à rainha Ester. A lei daquela terra era irrevogável. Uma vez que o rei havia autorizado e selado referida lei com seu anel, ela não poderia ser revertida, “...porque os decretos feitos em nome do rei e que com o seu anel se selam não se podem revogar” (Ester 8.8).

Isso deve nos lembrar das eternas leis de Deus. Quando o Senhor avisou a Adão que ele morreria se comesse do fruto proibido, essa Lei não poderia ser revogada. Daquele dia em diante, cada pessoa na face da terra estava destinada a morrer, desde o momento de seu nascimento. Não existe possibilidade de se revogar uma Lei Eterna de Deus. Portanto, qualquer um que quiser viver sob a Lei, nunca terá a chance de ter a vida eterna. Para podermos escapar da morte eterna, precisamos aprender uma nova Lei. Essa Lei é baseada em uma outra Lei, estabelecida pelo Filho de Deus. João 3.36 diz: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus”. Esse é o ponto principal da mensagem da Bíblia: a fé no sacrifício substituto do Filho de Deus nos coloca sob a jurisdição de uma nova Lei, a Lei do amor. A morte certamente está sob a Lei antiga; contudo, essa sentença de morte já foi executada sobre o Senhor Jesus Cristo, que pagou pelas nossas transgressões em sua totalidade. Qualquer tentativa em manter leis estabelecidas por assembléias, em guardar certos dias santos ou o sábado, a fim de se obter a justificação, é vã. Nada disso levará à salvação eterna, mas sim à condenação. A Bíblia diz claramente: “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé. Ora, a lei não procede de fé, mas: Aquele que observar os seus preceitos por eles viverá. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se ele próprio maldição em nosso lugar (porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado em madeiro)” (Gálatas 3.10-13).

No caso da rainha Ester, vemos que uma nova lei teria que ser escrita: “Então, foram chamados, sem detença, os secretários do rei, aos vinte e três dias do mês de sivã, que é o terceiro mês. E, segundo tudo quanto ordenou Mordecai, se escreveu um edito para os judeus, para os sátrapas, para os governadores e para os príncipes das províncias que se estendem da Índia à Etiópia, cento e vinte e sete províncias, a cada uma no seu próprio modo de escrever, e a cada povo na sua própria língua; e também aos judeus segundo o seu próprio modo de escrever e a sua própria língua” (Ester 8.9). Qual era o conteúdo dessa lei? “...o rei concedia aos judeus de cada cidade que se reunissem e se dispusessem para defender a sua vida, para destruir, matar e aniquilar de vez toda e qualquer força armada do povo da província que viessem contra eles, crianças e mulheres e que se saqueassem os seus bens” (Ester 8.11).

Quem eles iriam destruir? Que propriedade eles saqueariam? Anteriormente, vimos que os inimigos dos judeus se identificaram pelos preparativos que estavam fazendo para a sua destruição. Tenho certeza que os judeus sabiam exatamente onde moravam seus inimigos. A lei anterior, redigida por Hamã, havia causado a identificação de tais inimigos.

Um evento similar aconteceu quando Israel estava sob o jugo de Faraó. Depois que Moisés requisitou a liberação do povo, Faraó se recusou a deixá-lo partir e ordenou que os israelitas fossem pelo campo e ajuntassem sua própria palha. Assim fazendo, eles se familiarizaram com os vizinhos egípcios, suas casas, e também o conteúdo destas. Então, quando chegou a hora do êxodo, eles foram até a casa daquelas pessoas e pegaram seus bens mais valiosos.

Os judeus ainda tinham uma sentença de morte pairando sobre suas cabeças, mas também tinham uma nova lei selada pelo rei: “No dia treze do duodécimo mês, que é o mês de adar, quando chegou a palavra do rei e a sua ordem para se executar, no dia em que os inimigos dos judeus contavam assenhorear-se deles, sucedeu o contrário, pois os judeus é que se assenhorearam dos que os odiavam; porque os judeus, nas suas cidades, em todas as províncias do rei Assuero, se ajuntaram para dar cabo daqueles que lhes procuravam o mal; e ninguém podia resistir-lhes, porque o terror que inspiravam caiu sobre todos aqueles povos. Todos os príncipes das províncias, e os sátrapas e os governadores, e os oficiais do rei auxiliavam os judeus, porque tinha caído sobre eles o temor de Mordecai” (Ester 9.1-3).

A rainha Ester arriscou sua vida. Ela estava disposta a sacrificar-se por seu povo e passou a ser a principal personagem envolvida na salvação física da raça judaica. Seu primo Mordecai foi elevado à realeza: “Então, Mordecai saiu da presença do rei com veste real azul-celeste e branco, como também com grande coroa de ouro e manto de linho fino e púrpura; e a cidade de Susã exultou e se alegrou” (Ester 8.15). É importante observar o resultado dessa elevação de Mordecai: “Sucedeu isto no dia treze do mês de adar; no dia catorze, descansaram e o fizeram dia de banquetes e de alegria” (Ester 9.17). É assim que o Senhor trabalha. Em meio à fraqueza, Ele demonstra Sua força; em meio ao desespero, Ele dá eterna segurança. E através da morte, Ele traz a vida eterna. Nenhuma campanha, protesto organizado ou resistência teria ajudado os judeus durante o reinado de Assuero. Apenas a resolução firme da rainha Ester em arriscar a sua vida fez a diferença.

Quando o Evangelho é pregado em verdade, como foi o caso da igreja primitiva em Jerusalém, o Senhor age. Lemos em Atos 2.42-43,46-47: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”.

Na igreja primitiva eles “perseveravam na doutrina dos apóstolos”. Novamente, não lemos nada sobre qualquer tipo de marchas de protesto, oposição contra o governo, ou de luta contra todos os tipos de maldade social. Porém, a verdadeira dedicação dos crentes ao Evangelho fez com que tivessem o favor do povo. Eles não eram respeitados por sua posição social, mas por causa da sua simples fé, obedecendo ao que o Senhor havia ordenado, pregando o Evangelho a todas as pessoas em todo lugar.

No desenvolvimento da igreja primitiva, nada lemos sobre cruzadas especiais ou grandes eventos ecumênicos, mas sim sobre a adesão à doutrina dos apóstolos. A última frase diz: “...acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos”. Essa é a chave para a evangelização nos últimos dias. É de suma importância fazermos a vontade de Deus. Quando formos obedientes a Deus e nos dispusermos a nos sacrificar pela causa do Evangelho, verdadeiramente o Senhor acrescentará à Igreja diariamente os que forem salvos.

A instituição da festa de Purim

Até o dia de hoje, a festa de Purim é celebrada em Israel e nas casas dos judeus em todo o mundo. É a celebração da vitória da rainha Ester sobre Hamã, o inimigo dos judeus: “Mordecai escreveu estas coisas e enviou cartas a todos os judeus que se achavam em todas as províncias do rei Assuero, aos de perto e aos de longe, ordenando-lhes que comemorassem o dia catorze do mês de adar e o dia quinze do mesmo, todos os anos, como os dias em que os judeus tiveram sossego dos seus inimigos, e o mês que se lhes mudou de tristeza em alegria, e de luto em dia de festa; para que os fizessem dias de banquetes e de alegria, e de mandarem porções dos banquetes uns aos outros, e dádivas aos pobres. Assim, os judeus aceitaram como costume o que, naquele tempo, haviam feito pela primeira vez, segundo Mordecai lhes prescrevera; porque Hamã, filho de Hamedata, o agagita, inimigo de todos os judeus, tinha intentado destruir os judeus; e tinha lançado o Pur, isto é, sortes, para os assolar e destruir. Mas, tendo Ester ido perante o rei, ordenou ele por cartas que o seu mau intento, que assentara contra os judeus, recaísse contra a própria cabeça dele, pelo que enforcaram a ele e a seus filhos. Por isso, àqueles dias chamam Purim, do nome Pur. Daí, por causa de todas as palavras daquela carta, e do que testemunharam, e do que lhes havia sucedido” (Ester 9.20-26). (Arno Froese - http://www.beth-shalom.com.br)

Publicado anteriormente na revista Notícias de Israel, abril de 2006

domingo, 13 de março de 2011

BELÉM - CASA DO PÃO

Shalom chaverim!

וְאַתָּה בֵּית-לֶחֶם אֶפְרָתָה, צָעִיר לִהְיוֹת בְּאַלְפֵי יְהוּדָה--מִמְּךָ לִי יֵצֵא, לִהְיוֹת מוֹשֵׁל בְּיִשְׂרָאֵל; וּמוֹצָאֹתָיו מִקֶּדֶם, מִימֵי עוֹלָם

"Vê atah Beit Lechem Efratah, tsair lihyiot be-alfei Yehudah mimchá li yetse lihyiot moshel b’ Israel. Umotsaotav mi-qedem miyemei olam." (מיכה פרק ה:א, Mikhah 5:1, Miquéias 5:2).

"E tu, Beit-Lechem (Belém - casa do pão) Efratah (frutífera ou fértil), embora sejas pequeno entre os Clãs de Judah, de ti sairá para mim aquele que será líder em Israel. E suas origens são desde o princípio, desde os dias da eternidade." (Miquéias 5:2).

O local do nascimento de Jesus através dos tempos.

Há aproximadamente dois mil anos, Jesus nasceu em Belém. Por que justamente ali?
Jesus nasceu em Belém não apenas porque o profeta Miquéias profetizou que assim seria, mas porque Belém significa “Casa do Pão”. Em certa ocasião, Jesus disse: “Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede” (Jo 6.35).

Vamos fazer uma viagem imaginária até Belém. O que aconteceu ali no passado? Como está Belém hoje?

Belém no século XX

Belém há 55 anos: Israel encontrava-se em plena Guerra da Independência. Era a guerra pela sobrevivência do recém-proclamado Estado judeu. Belém foi ocupada pelo exército jordaniano com o apoio do Iraque, da Síria, do Líbano, do Egito, da Arábia Saudita e do Iêmen.

Belém no século XXI

Belém hoje: Através dos Acordos de Oslo, Belém se encontra sob domínio palestino – exatamente como a Jordânia queria. Assim, Belém faz parte do grupo de cidades da Terra Prometida de onde diariamente partem ameaças terroristas contra Israel.

Belém há três mil anos

Quando nos damos conta de que em árabe a palavra “palestinos” é a mesma que “filisteus”, ou seja, “filastini”, somos lembrados de algo que aconteceu ali há três mil anos: Belém estava ocupada pelos filisteus. O judeu Davi quase se consumia de saudades do lugar onde passara sua infância (2 Sm 23.13-17).

Davi cresceu em Belém. No deserto, ele cuidava dos animais de seu pai defendendo-os de ursos e leões. Davi tinha um dom especial para a música e a poesia hebraica. Através de revelações proféticas, ele sabia que um dia o Messias, o Salvador prometido, viria de sua descendência. Cerca de 1004 anos antes de Cristo, esse pastor de Belém conquistou a cidade de Jerusalém e elevou-a à condição de capital de seu reino. Por essa razão, há algum tempo, Jerusalém celebrou um jubileu muito especial: 3000 anos como capital judaica.

Belém no início da era cristã

Belém há 2000 anos: uma pequena e idílica cidadezinha situada na orla do deserto da Judéia, distante apenas doze quilômetros da esplendorosa capital Jerusalém. Por sua posição geográfica, Belém era muito apropriada para a criação de ovelhas. O deserto da Judéia é um deserto cheio de vida. Durante nove meses do ano ele fornece alimentação para ovelhas e cabras. No inverno, na época das chuvas, o deserto floresce e os montes se cobrem com um tapete verde. Os arredores de Belém são muito férteis, adequados ao plantio de cereais. Daí provém, provavelmente, o significativo nome de Belém, “Casa do Pão”.

Uma singular história de amor

No final do segundo século antes de Cristo desenrolou-se em Belém a história de amor entre Rute e Boaz, relatada no livro de Rute. Ele era israelita, ela moabita – o que hoje equivaleria a ele ser israelense e ela jordaniana. Será que esse não foi um romance meio complicado? Não, o relacionamento era bom, até muito bom, por uma razão bem definida: Rute, por profunda convicção pessoal, afastou-se da religião de seus antepassados e buscou refúgio sob as asas do Deus de Israel, o Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Ao se voltar para Deus, ela estava automaticamente aceitando as promessas que o Eterno fizera ao Seu povo Israel. Seu casamento foi abençoado com descendentes, e um de seus netos alcançaria um significado especial na história da humanidade: foi Davi, o maior rei de Israel, que conduziu o povo ao seu apogeu político. O sábio rei Salomão pôde, então, construir seu reino de paz sobre as surpreendentes vitórias militares de seu pai Davi.

Belém na profecia

No oitavo século a.C., Belém ficou no foco das profecias bíblicas. Miquéias, o morastita, anunciou que o Salvador prometido viria da dinastia de Davi e nasceria em Belém: “E tu, Belém-Efrata, pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá, de ti me sairá o que há de reinar em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Mq 5.2).

Deus cumpre as profecias apesar da confusão política

Os profetas de Israel anunciaram antecipadamente centenas de detalhes sobre o Messias. O último profeta do Antigo Testamento foi Malaquias, por volta do ano 400 antes de Cristo. Quando Belém se encontrava debaixo do domínio persa, esse profeta falou mais uma vez do Esperado. Depois dele não houve mais profetas que tenham deixado profecias escritas para o povo de. No Talmude, a mais importante obra teológica para os judeus, está escrito: “Depois dos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias o Espírito Santo afastou-se de Israel”. Em 300 a.C., Belém caiu sob domínio grego. No ano 63 a.C. os romanos invadiram a Judéia. Em 40 a.C. o Senado romano nomeou um “jordaniano”, o edomita Herodes, para ser “rei dos judeus”, que governava também sobre Belém. (A pátria dos edomitas encontrava-se originalmente na Jordânia). Mas a espera pelo “Vindouro”, como o Messias é chamado muitas vezes pelo povo de Israel, não terminou. Ao contrário. Ela ficava cada vez mais ansiosa – até que, numa certa noite, mensageiros celestiais proclamaram nos campos de Belém as grandiosas palavras: “Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.10-11). Grande alegria porque na “Casa do Pão” finalmente entrava Aquele que tinha autoridade para dizer de si mesmo: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6.48). Grande alegria mesmo que a pequena cidade judaica continuasse sofrendo debaixo do domínio estrangeiro! 

Aprendemos daí que o fato único de Deus tornar-se homem é tão grandioso que deixa de lado todos as outras ocorrências, todas as coisas, inclusive os problemas e as preocupações. A alegria espiritual não deve depender das circunstâncias, não deve basear-se em situações, resolvidas ou não, sejam elas políticas ou de natureza pessoal. A vinda de Jesus a este mundo traz consigo uma profunda alegria para todos aqueles que reconhecem que Ele é realmente o Cristo, o Filho de Deus. Sua vinda é a garantia de que Deus também vai cumprir todas as promessas que ainda faltam e de que o plano divino vai se realizar com toda a certeza. (Dr. Roger Liebi - http://www.beth-shalom.com.br)

sábado, 12 de março de 2011

Salmo 6 - O Papel do Arrependimento dos Pecados

Há alguns anos, acompanhei o caso de um irmão que, apesar de sempre ter sido dedicado e ativo na igreja, vinha paulatinamente se afastando tanto dos cultos como do convívio dos irmãos e da própria família. O motivo era o desejo de pegar um grande diamante em um garimpo que mantinha com muito esforço. O ano não tinha sido bom e já chegava a época das chuvas, o que poderia deixá-lo com um grande prejuízo. Por esse motivo, ele praticamente abandonou a igreja. Eu o alertei várias vezes sobre o risco de um crente se manter longe da comunhão dos salvos e do alimento da Palavra de Deus, mas nada mudava a atitude desse irmão.

Entretanto, para minha surpresa e alegria, certo dia ele me procurou e disse que não estava agindo bem e que estava arrependido. Com toda convicção, afirmou que, ainda que terminasse o ano acumulando prejuízos, não iria mais deixar os valores espirituais em segundo plano. Foi um arrependimento verdadeiro e uma grande mudança de rumo. Como uma surpresa adicional, na última semana antes do início das chuvas – que impossibilitam o trabalho de garimpo – esse irmão encontrou um poço no fundo de um rio onde pegou diamantes suficientes para pagar as despesas do ano todo, para financiar o início do trabalho no próximo ano e para contabilizar um bom lucro. Foi incrível como a tristeza e a preocupação se transformaram em alegria, não, contudo, sem passar antes pelo arrependimento.

Davi viveu essa dinâmica mais de uma vez. Uma delas está registrada no Salmo 6, o primeiro dos sete “salmos penitenciais” (6, 32, 38, 51, 102, 130, 143). O salmista experimentava um momento muito complicado em que sua própria vida estava em risco. Ele suplica a Deus que o livre e o salve (v.4) explicando, no v.5, que “não há, na morte, recordação de ti” (’ên bammawet zikreka). Davi não está, obviamente, ensinando que não há vida após a morte. Ele está clamando ao Senhor que o salve e oferece como razão, para tanto, a ideia de que empregará sua vida poupada para recordar do Senhor e da sua boa ação para com ele. Ele completa essa ideia dizendo “quem, na sepultura, o louvará?” (bishôl mi yôdeh-lak).

Esse compromisso e desejo de louvar o Senhor, caso seja poupado, ocorre em um momento em que o salmista não apenas corre risco de vida, mas se sente abalado pelas circunstâncias. Ele diz “estou desfalecido no meu lamento” (yaga‘tî be’anhatî). Imagine alguém lamentar tanto um sofrimento a ponto de se sentir cansado. Essa era a realidade de Davi. Ele chorava a ponto de se sentir exausto. Esse pranto tomava horas da sua noite. “Toda noite minha cama fica cheia das minhas lágrimas; meu leito se desfaz” (bekal-laylâ mittatî bedim‘atî ‘arsî ’amseh), diz ele no v.6. Esse pranto tem uma causa (v.8): “todos aqueles que me são hostis” (bekal-tsôreray).

Perante situação tão triste, mesmo aterradora, Davi considera a possibilidade de se tratar de uma disciplina de Deus. Assim, o busca a fim de pedir pela sua misericórdia. Apesar de não ficar explícito o pecado e a confissão de Davi, a semelhança desse salmo com os outros nos quais Davi pede perdão, demonstra que ele está, sim, clamando pela misericórdia de Deus em meio ao arrependimento (basta comparar o v.1 com Salmo 38.1,4 e o v.2 com Salmo 32.3, 38,3 e 41.4).

Assim, Davi clama ao Senhor (v.1), não que não o repreenda, mas diz: “Não me repreenda na tua ira” ou “repreende-me não na tua ira” (’al-be’appeka tôkîhenî). O salmista sabe do poder de Deus e entende que o Senhor pode the trazer um castigo maior do que ele possa suportar. Jeremias parece ter a mesma visão ao dizer: “castiga-me, ó Senhor, mas em justa medida, não na tua ira, para que não me reduzas a nada” (Jr 10.24). Como uma oração complementar, Davi pede: “E não me discipline na tua irritação” (we’al-bahamatka teyasserenî). É bem possível que Davi merecesse tal punição. Por isso, o foco do pedido do salmista (v.2) é “seja favorável a mim, Senhor” ou “use de misericórdia para comigo, ó Senhor” (hannenî yehwâ).

Do choro Davi passa para o arrependimento. Entretanto, não para nele. Algo maravilhoso acontece nessa jornada. O pranto se transforma em alegria mediante o pedido de perdão, não porque o salmista passe a ver a situação com outros olhos, mas simplesmente porque o Senhor de fato o perdoou e agiu de acordo com essa realidade. Assim, Davi se vê livre das mãos dos inimigos (v.8) exatamente porque “o Senhor ouviu a voz do meu lamento” (shama‘ yehwâ qôl bikyî), explica ele. Sua trajetória foi “do choro ao arrependimento e do arrependimento à alegria”. O pecado realmente causa inúmeras tristezas, seja em termos de consequências, seja na óbvia tristeza pela perda de comunhão com o Senhor. O perdão de Deus encontra o cristão, nesse sentido, como um bálsamo sobre uma ferida: traz alívio e cura.

Conheço muita gente que passou do choro à alegria por meio do arrependimento – eu inclusive. Nem sempre a alegria vem por meio da prosperidade ou da solução completa do problema, mas sempre há alívio da consciência culpada e restauração da comunhão com Deus e com o corpo de Cristo, a igreja. E, pensando bem, ao refletir sobre a graça, a bondade e o amor de Deus por nós – verdadeiras riquezas – o que são diamantes?

Pr. Thomas Tronco

Salmo 5 - A Atitude Correta Diante da Oração

Uma boa maneira de conhecer um cristão é observar sua oração. Por ser uma exteriorização do que há no íntimo, quando vemos alguém orar conhecemos um pouco do que há onde somente Deus pode ver.

Assim, se uma pessoa nunca toma a iniciativa de orar diante de dificuldades e até mesmo de tarefas corriqueiras ou se, a pedido de alguém, ora mecanicamente, percebe-se não se tratar de alguém muito dado a buscar o Senhor, seja em oração, seja pela leitura das Escrituras, seja pela meditação e contrição pessoal. Se alguém ora reivindicando bênçãos ou rejeitando dificuldades, tal pessoa tem dificuldades em se submeter à vontade e às orientações de Deus e costuma criar seu próprio modo de segui-lo. Se alguém tem por hábito orar antes de cada coisa que vai fazer, mesmo que sejam em momentos corriqueiros, surge diante dos olhos uma pessoa que entende que Deus é soberano e que sabe que os cristãos são inteiramente dependentes dele.

Nesse aspecto, há um tipo de pessoa que me intriga. É aquele que ora a Deus pedindo que cuide de certa situação, que faça sua boa vontade e que seja presente em cada detalhe. Contudo, apesar da correta oração, passa imediatamente a atuar como se não tivesse orado e como se Deus nada fosse fazer no sentido de atender a oração. A pessoa pede ajuda de Deus e, em um instante, nega a ajuda que pediu tomando a frente, ela mesma, da solução dos problemas.

Sob esse aspecto, Davi dá um bom exemplo para os discípulos do Senhor. Basta notar as condições do seu dia a dia expressas no Salmo 5. Ele enaltece, diante de Deus, os justos (v.12) e os que confiam e amam o Senhor (v.11), justamente porque eram as pessoas que ele tinha em menor número ao seu lado. É provável que os vv.4-6 demonstrem as características das pessoas que causavam problemas e riscos para o rei de Israel. São pessoas iníquas (v.4), arrogantes (v.5), enganadoras e violentas (v.6). Gente assim causa sofrimento a todos quantos estão ao seu redor.

Sabendo da presença e do risco que os inimigos representavam, Davi fez o correto: buscou a Deus em oração. Entretanto, dizer isso é tratar o assunto vagamente, visto que, em oração, podem-se fazer e falar muitas coisas, inclusive contraditórias. Temos visto, por exemplo, pessoas que oram repreendendo os males como se neles mesmos estivesse o poder para tanto; pessoas que ordenam bênçãos espirituais como se Deus fosse seu servo pessoal; pessoas que dizem para Deus que não aceitam algum mal que os acometa; e pessoas que, por incrível que pareça, oram perdoando o Senhor por ter-lhes infligido alguma provação.

Davi não orou assim, mesmo que estivesse preocupado com a violência e a maldade dos seus inimigos. Na verdade, ele teve três atitudes necessárias à oração baseada no ensino bíblico. Em primeiro lugar, ele clama a Deus por ajuda (v.1). O rei de Israel não repreendeu o problema, nem colocou Deus na parede, nem tampouco perdoou o Senhor por permitir a presença de inimigos. Davi, simplesmente, foi a Deus e fez uma petição pela solução do sofrimento. Com o coração compungido, ele diz “ouça as minhas palavras, ó Senhor, considera o meu gemido” (’amaray ha’azînâ yehwâ bînâ hagîgî). É como se dissesse: “Senhor, veja como estou sofrendo e me ajude”.

Em segundo lugar, Davi sabe seu lugar diante de Deus (v.2). Ele, o rei de Israel, se dirige ao Senhor e o chama de “Rei”. Na verdade, Davi diz “meu Rei e meu Deus” (malkî we’lohay). Ele não se sente apenas como o grande rei cheio de súditos, mas sabe que também é um súdito – súdito de Deus. O orgulho que costuma, infelizmente, acompanhar um cargo como o seu, não nubla a visão de que há alguém que reina sobre ele. Isso faz com que ele não busque seus direitos ou seus próprios recursos na solução do sofrimento. Ele, antes, busca o Rei exatamente com a mesma humildade e dependência que os seus súditos o buscavam.

Finalmente, em terceiro lugar, ele espera pela atuação de Deus (v.3). Depois de orar a Deus, Davi conclui com uma observação no mínimo intrigante. Quando a primeira reação que imaginamos que alguém em problemas teria, a saber, iniciar rapidamente algumas ações no sentido de dar fim ao mal, o rei de Israel leva em conta que expôs sua angústia ao Deus Todo-Poderoso e confia na sua sábia resposta. Depois de abrir seu coração a Deus, Davi diz: “E eu aguardo” (wa’atsapeh). Uma outra tradução possível seria “e fico observando”. Na verdade, essa palavra demonstra que Davi confiava tanto no poder, na sabedoria e no amor de Deus que, depois de orar, ele, realmente esperava pela resposta, qualquer que fosse. Isso não significa deixar de fazer o que é de sua responsabilidade, mas deixar de fazer o que não é, além de se abster de atitudes erradas por uma “boa causa”. Apesar de ser rei, Davi esperava como um servo que seu Senhor – e nosso – agisse.

Que exemplo a ser seguido por todos nós! Afinal, homens iníquos, arrogantes, enganadores e violentos cercam quase todos os cristãos. Que esse seja o incentivo e o exemplo para deixarmos de tomar caminhos tortuosos a fim de fazer o que é da alçada do Deus eterno e nos dediquemos, cada vez mais, à oração! Mas não uma oração qualquer. A oração e as atitudes dignas daquilo que Deus nos ensinou nas Escrituras.

Pr. Thomas Tronco

domingo, 6 de março de 2011

SHEMA ISRAEL

SHEMA ISRAEL ADONAI ELOHEINU ADONAI ECHAD
“Ouve, Israel: O Senhor nosso Deus, é o único Senhor”

O Senhor Jehovah – SENHOR
שמע ישראל יהוה אלהינו יהוה אחד
“Ouve, Israel: o Senhor nosso Deus, é o único Senhor,” Deuteronômio 6:4.

Na Bíblia em português há três maneiras de se escrever a palavra “senhor”. Algumas pessoas procuraram e descobriram o porquê da diferença e outros jamais a perceberam. Às vezes está escrita no Antigo Testamento e refere-se ao criador do mundo como “Senhor” e outras vezes Senhor. E por quê? E ainda em outras ocasiões acha-se senhor.

Observou bem? Senhor com letra maiúscula, senhor com letra minúscula e ainda Senhor com todas as letras em versalete. Reparou? Veja que logo no primeiro livro da Bíblia, confira Gênesis 2:4 onde se encontra Senhor. Depois em Gênesis 15:2 encontra-se Senhor. E finalmente o exemplo de senhor com letra minúscula em Gênesis 23:11. Como podemos organizar tudo isto?

Começo com o mais simples, a saber, Senhor ou senhor. Nos dois casos a palavra no hebraico é a mesma, אדני (adonai). Quanto ao hebraico não há distinção, pois todas as letras no hebraico bíblico estão escritas em letras maiúsculas. Não se usa letras minúsculas nos impressos.

Na Bíblia, o sentido é duplo. Assim… a bendita concordância foi logo consultada. Em Gênesis 24, o vocábulo “senhor” é usado repetidas vezes ao referir-se ao homem que procurava uma mulher para o filho de Abraão. Este homem, por respeito, chamou seu patrão de “senhor” com o sentido de mestre a quem era responsável, conforme vv. 9,12,14, 7,35 , e mais nove vezes. Obviamente este homem era empregado de Abraão e reconheceu isto pela forma de falar com seu mestre. Talvez a palavra patrão seja uma boa forma de expressar este sentido.

Não é difícil compreender como se deve pensar quando se encontra a palavra “Senhor” (letra inicial maiúscula). Na ortografia moderna foi determinado distinguir entre senhor — o divino, e, senhor — o terráqueo. Adotou-se então a letra maiúscula Senhor em referência a Deus, enquanto senhor com letra minúscula se usa em outros casos.

Resta então o uso da palavra com todas as letras em versalete, Senhor. Surpresa entre as surpresas, pois não se refere aos dois casos anteriormente apresentados. Senhor representa o tetragrama por ser uma palavra feita de quatro letras (como tetracampeão) no idioma hebraico, a saber, יהוה (jhvh ou yhwh). O hebraico não foi escrito originalmente com as vogais. Porém a ortografia da língua portuguesa exige o uso de vogais. Assim sendo, esta palavra hebraica seria traduzida ou por Jehovah ou Yahweh. Daí então a pergunta lógica, por que isto não se encontra nas traduções brasileiras? Pensou bem!

Para o bem ou mal dos israelitas, por algumas centenas de anos antes de Cristo mal se interpretavam textos como Êxodo 20:7 ou Levítico 24:11. Este nome era considerado tão sagrado que nem deveria ser pronunciado verbalmente. Com o passar dos séculos perdeu-se a maneira de pronunciar este tetragrama. De fato o hebraico bíblico decaiu tanto no uso, que muitos nem mais podiam ler com facilidade o Antigo Testamento, pois os livros deste, não continham vogais, Os massoretas no sétimo século d.C. inventaram símbolos vogais para preservar a leitura hebraica. Porém, até então, ninguém mais lembrava-se das vogais originais do tetragrama. E reinava ainda a ideia de que não devia ser pronunciado, e sendo assim, isto não era importante para estes homens.

Mas ainda resta a pergunta, por que não se acha Jehovah/Yahweh nas mais importantes traduções de língua portuguesa ou no idioma inglês? Há duas explicações: Os da tribo de Judá ao voltar do cativeiro cultivaram a ideia de que o nome era tão sagrado que o proibiram ser pronunciado. Nas leituras públicas ao encontrar o tetragrama simplesmente diziam “Shema” (hebraico significando “nome”). Outros ainda usaram “Adonai” (a palavra acima descrita) ao encontrar a tetragrama. Daí então quando o Antigo Testamento foi traduzido da língua hebraica para a grega os tradutores utilizaram a palavra “kurios” (Senhor). Dessa forma foi registrado nas traduções ocidentais.

Porém, há outra escola que diz que ao “traduzir” o tetragrama isto poderia ser uma agressão ofensiva para a comunidade israelita. Por essa razão, os tradutores procuraram achar meios para indicar quando a Bíblia hebraica usava o tetragrama sem ofender os israelitas. E adotaram o uso de “Senhor” em todas as letras maiúsculas. Sei que foi este o caso da Nova Versão Internacional. Lembro-me de quando nosso professor Randy Cook, do Seminário Batista Regular em São Paulo, que participava da elaboração da versão NVI retornou após uma semana de trabalhos todo inconformado, pois fora decidido traduzir o tetragrama. E ele, sendo interessado na evangelização da comunidade israelita, montou uma tese para argumentar contra a decisão. Evidentemente, convenceu seus colegas, pois voltaram atrás seguindo a prática adotada por séculos. E ficou assim mesmo Senhor para o tetragrama.

Sem entrar nos pormenores técnicos saiba que o tetragrama Senhor é derivado do verbo “ser”. Por essa razão, Deus respondeu a Moisés: “Eu Sou o que Sou” (do verbo ser). Indicando dessa maneira que Deus é ser eterno, e que Ele existe. Nessa conversa Deus assegurou a seguinte promessa: “Eu serei contigo.” O Seu nome Senhor deve ser ligado a esta promessa — da presença dele na vida de Moisés e de todos os seus ascendentes. O uso do tetragrama os lembraria para sempre de que o Deus eternamente existente é também o Deus que iria lhes acompanhar. Por seis mil oitocentos e vinte e três vezes Deus se identificou como Senhor no Antigo Testamento, lembrando-os de que Ele era o eterno Deus, sempre com eles.

Ricardo Sterkenburg, dr.
Diretor jubilado do Seminário Batista Regular em São Paulo.

terça-feira, 1 de março de 2011

DESAFIANDO O D-US DE ISRAEL


Abraão foi chamado de “amigo de Deus” (Tg 2.23), uma expressão que não é usada para referir-se a qualquer outra pessoa na Bíblia. Como resultado desse relacionamento, Deus fez com esse “amigo especial” uma “aliança perpétua” (Gn 17.7,13,19; 1 Cr 16.16-18; Sl 105.8-12, etc.), que durante o decurso da História é estendida aos seus descendentes.

Essa aliança envolvia: (1) a Terra Prometida e (2) o Messias prometido. Somente através do Messias Deus poderia cumprir o que prometera a Abraão, Isaque e Jacó: “em ti [e na tua descendência] serão benditas todas as famílias [nações] da terra” (Gn 12.3; 22.18; 26.4; 28.14). A promessa de Deus em relação à terra foi clara: “porque toda essa terra que vês, eu ta darei, a ti e à tua descendência, para sempre” (Gn 13.15); “...fez o SENHOR aliança com Abrão ...À tua descendência dei esta terra, desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates” (Gn 15.18); “toda a terra de Canaã, em possessão perpétua...” (Gn 17.7-8).


Abraão teve vários filhos. De Hagar, a serva egípcia de Sara, gerou a Ismael. Com Sara, teve Isaque. Seis outros nasceram de Quetura, com quem se casou após a morte de Sara (Gn 25.1-2). Sara era estéril. Nem ela nem Abraão podiam crer na promessa de Deus de que ela teria um filho (Gn 16.1-4). Abraão estava satisfeito com Ismael e pediu que a aliança com Deus fosse cumprida através dele (Gn 17.18). Porém, Ismael era um filho ilegítimo, nascido da falta de fé de Abraão e de Sara, e não o filho que Deus havia prometido a eles. Rejeitando o apelo de Abraão, Deus declarou enfaticamente: “De fato, Sara, tua mulher, te dará um filho, e lhe chamarás Isaque; estabelecerei com ele a minha aliança, aliança perpétua para a sua descendência. Quanto a Ismael... abençoá-lo-ei... A minha aliança, porém, estabelecê-la-ei com Isaque, o qual Sara te dará à luz” (Gn 17.19-21).

Isaque Recebeu a Promessa

As Escrituras repetem de forma clara que através de Isaque, nascido milagrosamente de Abraão e Sara, seriam cumpridas as promessas de Deus a respeito da terra e do Messias. A Bíblia também mostra que Ismael não era o filho cujos descendentes iriam possuir a Terra Prometida. Essas declarações são tão claras e repetidas na Palavra de Deus, que não podem ser honestamente questionadas. Mesmo assim, os árabes, que afirmam ser descendentes de Ismael, reclamam para si as promessas feitas por Deus a Isaque e, através dele, aos judeus. A afirmação do islã, de que Ismael era o filho da promessa, não apenas contradiz as Escrituras, mas, de maneira irracional, dá prioridade ao filho ilegítimo sobre seu meio-irmão, que é o verdadeiro herdeiro.

Ao distinguir Isaque dos outros filhos de Abraão, sem sombra de dúvidas, Deus o chama de o “único filho” de Abraão e ordena que o sacrifique no monte Moriá (Gn 22.2). Isaque, submetendo-se ao mandamento de Deus, permitiu que seu pai o amarrasse sobre o altar. Então, Deus o livrou no último instante, quando já havia comprovado a completa obediência tanto do pai quanto do filho (Gn 22.1-14). Esse é o testemunho das Escrituras: “Deus não pode mentir” (1 Sm 15.29; Sl 89.35; Tt 1.2, etc.) e Seus “dons e a vocação... são irrevogáveis” (Rm 11.29).

Esaú e Jacó

Isaque teve dois filhos gêmeos: Esaú e Jacó. Contrariando o costume daqueles tempos, ao invés de Esaú, o primogênito, Deus escolheu Jacó, o filho mais novo, através de quem Suas promessas seriam cumpridas. Antes dos gêmeos nascerem, Deus revelou especificamente à mãe deles, Rebeca, o que aconteceria com os seus descendentes: “Duas nações há no teu ventre, dois povos... o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23).
A profecia não tratava de Esaú e Jacó como indivíduos (na verdade, Esaú nunca serviu a Jacó enquanto viveram), mas referia-se às nações que descenderiam deles. Os árabes são os descendentes tanto de Ismael quanto de Esaú, pois este e seus descendentes casaram com a descendência de Ismael (Gn 28.9).

A Promessa Renovada

Os judeus, por outro lado (isolados no Egito por 400 anos e levados à Terra Prometida como um grupo étnico distinto), são os descendentes de Abraão através de seu filho Isaque e de seu neto Jacó, o qual teve seu nome mudado por Deus para Israel. A promessa da terra e do Messias foi renovada por Deus a Isaque: “a ti e a tua descendência darei todas estas terras... Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra” (Gn 26.3-4). Deus também disse a Jacó (Israel): “A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência. A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra” (Gn 28.13-14).


Sem dúvida alguma, a terra de Israel (“desde o rio do Egito até ao grande rio Eufrates” – Gn 15.18) foi entregue perpetuamente aos judeus. Deus declarou: “Também a terra não se venderá em perpetuidade, porque a terra é minha; pois vós sois para mim estrangeiros e peregrinos” (Lv 25.23). Em flagrante desobediência, os líderes de Israel têm trocado terras por “paz” com os palestinos, que juraram exterminar Israel. O povo de Israel abandonou a convicção bíblica expressa pelo seu primeiro premiê, David Ben Gurion:

Nosso direito a esta Terra Santa está totalmente assegurado, é inalienável e eterno... Este direito... não pode ser retirado sob circunstância alguma... [os israelitas] não têm poder nem jurisdição para negá-lo às gerações vindouras... até que venha a grande redenção, nunca devemos abrir mão desse direito histórico.[1]

O Povo Escolhido

Para assegurar que toda a humanidade entenda que os judeus são o povo escolhido de Deus, a palavra “Israel” predomina na Bíblia, sendo citada 2.565 vezes em 2.293 versículos. Em contraste, os árabes são mencionados apenas dez vezes.

Qualquer pessoa que afirma acreditar na Bíblia deve entender que existe apenas uma nação e um povo - somente os judeus - a quem Deus entregou a terra e fez promessas específicas e perpétuas. Os judeus são o único povo que continua existindo enquanto nação (mesmo quando foram dispersos), que tem sua genealogia preservada nas Sagradas Escrituras e que é identificável no mundo de hoje. Se não fosse assim, milhares de promessas feitas por Deus não seriam cumpridas e Ele seria um mentiroso. “Orai pela paz de Jerusalém! Sejam prósperos os que te amam” (Sl 122.6).

Yahweh não é Alá


Já documentamos em outras oportunidades que o Deus da Bíblia (Yahweh, Javé) e o Alá do Corão não são o mesmo. Yahweh refere-se a si mesmo 12 vezes como “o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó”. Por um número impressionante de vezes, 203 em 201 versículos (de Êxodo 5.1 até Lucas 1.68), Ele é chamado de “Deus de Israel”, mas nunca de “Deus de Ismael”.

Em contraste, o islã e Alá expressam seu ódio por Israel e por todos os judeus. Apenas esse fato já seria suficiente para distinguir Alá de Yahweh. O Corão e a tradição islâmica citada no hadith repetidamente vilificam os judeus: “...judeus... destinamos... [a] ...eles um castigo doloroso” (Sura 4.160-161); Alá “os amaldiçoou por sua descrença” (4.46). “que Deus os combata” (9.30) “Estão condenados ao aviltamento onde quer que se encontrem...” (3.112); “A ressurreição dos mortos não ocorrerá até que os muçulmanos guerreiem contra os judeus e os matem; as árvores e as rochas dirão: ó muçulmano... há um judeu atrás de mim, venha e o mate”.[2]

Perseguição aos Judeus

Infelizmente os árabes, persistindo na sua falsa alegação de que Ismael era o filho legítimo da promessa, rebelaram-se contra a Palavra de Deus. Seu ódio ciumento dos descendentes de Isaque (exacerbado pelos ensinamentos e pelos exemplos de Maomé e do islã) deixou uma mancha na História da humanidade, que não encontra comparação nem mesmo com o que Hitler fez.

Por 1300 anos os judeus sofreram tratamento desumano e demonstrações periódicas de violência nos territórios muçulmanos. Tomemos o Marrocos como exemplo do que ocorreu em grande parte das áreas dominadas pelos árabes. Lá os judeus foram forçados a viver em guetos chamados de mellahs. Um historiador escreveu que estupros, agressões, queima de sinagogas, destruição de rolos do Torá e assassinatos eram “tão freqüentes que é impossível listar a todos”.[3] Usando apenas mais um exemplo, na cidade de Fez, em 1032, cerca de 6.000 judeus foram assassinados e muitos outros “destituídos de suas mulheres e propriedades”.[4] Esse tipo de massacre continuou periodicamente naquela cidade e em todo o Marrocos (bem como em outros países muçulmanos). Curiosamente, a feroz perseguição de 1640, na qual mulheres e crianças foram assassinadas, foi chamada de al-Qaeda [o mesmo nome do grupo terrorista de Osama bin Laden]. Chouraqui (p. 39) diz que os judeus sofreram “tamanha repressão, restrições e humilhações que sobrepujaram qualquer coisa que possa ter ocorrido na Europa”.[5]

A Esperança de Redenção

A maioria dos judeus de hoje não acredita nas promessas que Deus fez a Abraão, Isaque e Jacó. Mesmo assim, através dos séculos sempre existiu uma minoria que creu nessas promessas e chegou até mesmo a reconhecer e admitir que a dispersão dos judeus era um sinal do julgamento de Deus sobre eles. Maimônides, o famoso médico e filósofo judeu, cuja família teve de fugir da perseguição islâmica na Espanha, justamente para a cidade de Fez (tendo que fugir posteriormente do Marrocos), escreveu em sua “Epístola Para o Iêmem” (1172): Um... dos principais aspectos da fé de Israel é que o futuro redentor de nosso povo irá... reunir nossa nação, ajuntar todos os exilados, redimir-nos de nossa degradação... Tendo em vista o grande número de nossos pecados, Deus nos espalhou em meio a esse povo, os árabes, que nos perseguiram furiosamente... Nunca uma nação nos perturbou, degradou, rechaçou e nos odiou tanto quanto eles...[6]

A Perseguição Continua

Essa perseguição continua contra os poucos milhares de judeus que ainda não escaparam dos países muçulmanos. Em uma carta datada de 10 de julho de 1974, escrita ao então Secretário-Geral das Nações Unidas Kurt Waldheim, Ramsey Clark declarou: “Os judeus que vivem na Síria hoje estão sujeitos às perseguições mais cruéis e desumanas... Jovens, mulheres e crianças são arrastados pelas ruas. Os velhos são agredidos. Casas são apedrejadas... Eles não podem mais viver em paz e são incapazes de ter vidas dignas... Muitos foram presos, detidos, torturados e mortos”.

Os muçulmanos alegam falsamente que a animosidade contra os judeus é o resultado da fundação do Estado de Israel. Mas, obviamente, esse não é o caso, tornando essa mentira realmente embaraçosa. As denúncias religiosas oficiais do Corão contra os judeus já existiam há mais de 1200 anos antes do ressurgimento de Israel. Joan Peters escreveu em seu livro “From Time Immemorial” [Desde Tempos Imemoráveis]: “Não vos teve o Senhor afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o Senhor vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais..”(Êx 7.7,8). 

O falecido rei Faisal da Arábia Saudita disse a Henry Kissinger [um judeu]: “...antes que o Estado judeu fosse estabelecido, não existia nada que pudesse prejudicar as boas relações entre árabes e judeus...” Ironicamente, nenhum judeu podia entrar e viver na Arábia Saudita [pois Maomé os havia matado ou vendido como escravos] e isso continua válido até hoje. O rei Hussein da Jordânia afirmou: “os relacionamentos que possibilitaram que árabes e judeus vivessem juntos por séculos como vizinhos e amigos foram destruídos pelas idéias e atitudes sionistas”. Entretanto, a Constituição da Jordânia declara que “um judeu” não pode tornar-se cidadão da Jordânia.[7]


A Jordânia anexou a maior parte do território da “Palestina” que a resolução 181 das Nações Unidas havia destinado para os “palestinos” em novembro de 1947, destruindo os locais de culto judaicos e expulsando todos os judeus, meses antes do nascimento do Estado de Israel.

Ódio aos Judeus

O ódio aos judeus, por parte dos muçulmanos obedientes a Maomé, e o maligno apoio que recebem da maior parte do mundo continuam até hoje numa determinação satânica de exterminar o Estado de Israel. Esse ódio indica qual é a chave para os problemas no Oriente Médio, que seriam resolvidos se os muçulmanos e o mundo aceitassem e obedecessem ao que está escrito claramente na Bíblia.

É óbvio que o mundo está entregue a uma imoralidade crescente e busca cegamente a “concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2.16). Isso demonstra sua contínua rebelião contra Deus. Até mesmo os ímpios sabem (Rm 1.32) que todos que participam dessas coisas serão considerados culpados pelo “Juiz de toda a terra” (Gn 18.25; Jo 5.22; Ap 20.12-15). Entretanto, existe outra grave demonstração de desobediência a Deus, que chega a ser um desafio aberto, na qual todo o mundo está unido: o apoio aos descendentes de Ismael para o estabelecimento de um “Estado Palestino” dentro de Israel.

A persistência dessa exigência ilegítima, apoiada pelo resto do mundo, constitui uma rejeição clara do testemunho das Escrituras e rebelião contra Deus. Esses dois crimes deram origem à crise que o Oriente Médio enfrenta hoje. Em seu livro Personal Witness [Testemunha Ocular], Abba Eban registrou que, na ocasião em que o presidente americano Harry Truman queria reconhecer Israel, George C. Marshall, seu secretário de Estado, declarou com aspereza: “Eles não merecem ter seu próprio Estado, eles roubaram aquele país”.

As Profecias se Cumprem

O duplo cumprimento das profecias bíblicas sobre Israel, que podemos acompanhar nos noticiários diários, está se aproximando do clímax predito para nosso tempo – o final dos “últimos dias”. Em outras publicações temos mostrado o pano de fundo dessas profecias e o alcance geral da sua consumação atual, especialmente através do nazismo e de seu parceiro e atual sucessor no anti-semitismo e terrorismo, o islã (veja os livros “Hitler – O Quase-Anticristo” e “Jerusalém – Um Cálice de Tontear”).

O cumprimento das profecias bíblicas nos eventos atuais é um assunto de grande interesse para os não-cristãos: ele oferece provas irrefutáveis da existência de Deus e de que a Bíblia é Sua Palavra infalível para a humanidade. Desse modo, trata-se de um excelente instrumento de evangelismo. Esperamos que nossos leitores façam amplo uso dos materiais que oferecemos com esse propósito.

O “peso” profético de Israel e de Jerusalém continuará aumentando até ameaçar esmagar todo o mundo em um conflito global. Tragicamente, uma prévia desse conflito já se manifestou através do flagelo do terrorismo internacional. Também nesse caso, Israel tem sido o bode expiatório.

O Único Deus

Yahweh afirma repetidas vezes que Ele é o único Deus verdadeiro: “Há outro Deus além de mim? Não, não há outra Rocha que eu conheça” (Is 44.6,8). Ele também declarou: “fora de mim não há salvador” (Is 43.11; Os 13.4). Isaías profetizou que o Messias prometido, que viria para pagar a penalidade pelo pecado conforme exigia Sua própria justiça, seria “Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6). Por isso, Jesus declarou “Eu e o Pai somos um” (Jo 10.30). Ele alertou que todos que negarem que Ele é Yahweh, o Salvador, perecerão e ficarão eternamente afastados dEle e do céu: “...se não crerdes que Eu Sou,* morrereis nos vossos pecados” (Jo 8.24), mas também prometeu: “Se alguém guardar a minha palavra, não provará a morte, eternamente” (Jo 8.52b). Precisamos fazer com que essa mensagem do Evangelho fique clara para todos. (Dave Hunt - TBC 1/02 - http://www.beth-shalom.com.br)

* Para entender melhor as implicações dessa afirmação de Jesus, é necessário analisar todo o contexto em João 8.12-59. No versículo 58 Jesus disse: “Antes que Abraão existisse, Eu Sou”. A respeito, Charles Ryrie diz na Bíblia Anotada: “A expressão Eu Sou denota existência eterna absoluta, não apenas existência anterior à de Abraão. É uma reivindicação de ser o Javé do A.T. A reação dos judeus (v. 59) a esta suposta blasfêmia demonstra que eles entenderam claramente o significado desta reivindicação de Cristo” (N.R.).

Notas:
  1. “Betrayal”, American Friends of Women for Israel’s Tomorrow, Norfolk, VA (757) 857-4708, anúncio no The International Jerusalem Post, 30/11/2001, p.11.
  2. Moshe Ma’oz, The Image of the Jew in Official Arab Literature and Communications Media (Hebrew University of Jerusalem, 1976), p.14.
  3. H. Z. Hirschberg, A History of the Jews in North Africa (Leiden, Holanda, 1974).
  4. Livro de Orações Diárias, Ha-Siddur Ha-Shalem (New York, 1972), pp. 456-457.
  5. Andre Chouraqui, Between East and West: A History of the Jews of North Africa (Philadelphia, PA, 1968), p. 51.
  6. Isadore Twersky, ed., A Maimonides Reader (New York, 1972), pp. 456-457.
  7. Joan Peters, From Time Immemorial (...), p.72.
Publicado anteriormente na revista Notícias de Israel, abril de 2002.