sábado, 4 de junho de 2011

Salmo 24 - Quem Tem Direito de Estar com Deus?

Há muito tempo não existem bons programas humorísticos na televisão como havia em meus tempos de criança. Hoje, os programas são apelativos e imorais, além de deixarem o humor completamente de fora. Para sanar esse vácuo, gosto de assistir àqueles concursos musicais em sua fase inicial. Diferente das fases seguintes, qualquer pessoa pode participar, tendo ela muita, pouca ou absolutamente nenhuma noção de música. Nesse aspecto, o programa passa a ser muito engraçado devido a apresentações emblemáticas de participantes que nunca serão cantores na vida.

O interessante é que muita gente vai lá, munida de extremo bom humor, somente para fazer apresentações estranhas e rir depois com os amigos. É aquela história dos “quinze minutos de fama”. Contudo, o que me deixa espantado são as reações de alguns candidatos que, após apresentações “horríveis”, ficam surpresos ao serem rejeitados pelos jurados. Alguns reclamam, choram, dizem não saber o motivo da reprovação e atacam os jurados como se fossem pessoas injustas ou como se desconhecessem a boa música. Nisso, o que me choca é o fato de tais candidatos realmente se acharem no direito de serem aprovados, apesar da total ausência de senso e de talento musical.

Infelizmente, esse não é o único campo em que falta noção aos homens. Muita gente, longe dos palcos musicais, se acha no direito de ter acesso a Deus sem antes ser tratada pela sua graça e pela sua Palavra. Quase todos já ouviram pessoas defendendo seu direito ao céu por serem pessoas boas – as obras são as bases desse tipo de defesa e não a graça de Deus. Para esses, o fato de nunca terem matado ou roubado ninguém lhes dá livre acesso à presença de Deus. Outros defendem o mesmo direito com base na suposta disposição de Deus de dar um “jeitinho” para que ninguém seja rejeitado. Alguns até dizem que “Deus é brasileiro”.

Nenhuma afirmação está mais distante da verdade. O Salmo 24, escrito por Davi, oferece alguns parâmetros para reconhecer aqueles que terão acesso a Deus enquanto outros serão rejeitados. Uma pergunta chave levantada pelo salmo é (v.3): “Quem subirá ao monte do Senhor e quem permanecerá no seu lugar santo?” (mî-ya‘aleh behar-yehwâ ûmî-yaqûm bimqôm qadshô). A pergunta vislumbra a cidade de Jerusalém – onde está o Monte Sião – (“monte do Senhor”) e o tabernáculo construído por Davi (“seu lugar santo”) ao trazer de volta a arca do seu exílio, primeiro entre os filisteus e, depois, em Quiriate-Jearim (2Sm 6 cf. 1Sm 6.21). Entretanto, é bem provável que o salmista tivesse em mente menos a geografia que o contato do adorador com seu Senhor. Desse modo, a pergunta não é sobre quem pode chegar a Jerusalém, mas sobre quem pode permanecer na presença de Deus. Segundo se depreende do salmo, aqueles que se relacionam com Deus e estarão para sempre com ele têm pelo menos três características inegociáveis.

A primeira é que são conscientes da supremacia divina (vv.1,2). O salmista inicia seu cântico dizendo (v.1): “Do Senhor é a terra e tudo o que existe nela” (layhwâ ha’arets ûmelô’ah). O Senhor, como Criador do universo, é também o proprietário da criação. Isso lhe confere um posto singular, não apenas como Deus no sentido religioso, mas também como o Senhor de tudo que envolve o dia a dia da criação, pois tudo é dele. Antes que alguém pense que isso tem a ver apenas com a natureza e não com a humanidade, Davi completa: “O mundo e seus habitantes” (tebel weyoshe). Assim, não há quem não esteja sob o domínio e a soberania do Senhor, de modo que possa, Deus, dispor de tudo e de todos como bem lhe parecer (Rm 9.20,21, Ef 1.5). O verdadeiro adorador do Senhor sabe dessa supremacia sobre tudo e se submete, não compulsoriamente, mas de coração como fazem os servos. Ele se deixa guiar por aquele que, por direito, o possui. Trata-se de alguém que é, em tudo, influenciado por Deus e que lhe tem como Senhor, de fato, nos mínimos detalhes da sua vida.

A segunda é serem santificados pelo Senhor (vv.3-6). A santificação – separação gradual e progressiva dos pecados e da mentalidade mundana – é um fator presente na vida dos que permanecerão diante do Senhor (Hb 12.14). Apesar de a Bíblia demonstrar que as obras não podem salvar o homem (Rm 3.20; Ef 2.9) e que a purificação do crente vem mediante a atuação de Deus (Jo 17.17), o salmista olha para a demonstração externa da santificação como uma evidência da efetiva preparação para levar o servo ao seu Senhor. Diz ele (v.4), respondendo à pergunta do v.3: “O de mãos puras e de coração limpo” (̃neqî caffayim ûbar-levav). Isso significa que a santificação daqueles que são alvo dessa graça divina muda suas ações – “mãos puras” – e, também, suas intenções – “coração limpo”. Além disso, o que Deus inicia na justificação completará na glorificação (Rm 8.30), pois, conforme declara o salmista (v.5), “esse levará consigo a bênção do Senhor e a justiça do Deus da sua salvação” (yissa’ berakâ me’et yehwâ ûtsedaqâ me’elohê yishô‘). Portanto, o que Deus iniciou nesta vida será também realidade no futuro dos servos santificados pelo seu Senhor.

A terceira característica é que eles são súditos do Rei da glória (vv.7-10). O v.7 anuncia, de um modo peculiar que transmite a ideia de um acontecimento glorioso, a vinda de quem ele chama de “o Rei da glória” (melek hakkavôd). Trata-se de uma menção ao Messias que vem para reinar; aquele que, segundo o v.8, é “o Senhor valoroso e poderoso; o Senhor poderoso de guerra” (yehwâ ‘izzûz wegibôr yehwâ gibôr milhamâ). O Deus dos exércitos (Sl 59.5) é aquele que irá reinar, a quem Davi aguarda. O salmista e todos aqueles que são servos desse supremo Senhor agem, portanto, como seus súditos. Isso significa honrá-lo como governante máximo, respeitando e reverenciando seu nome, e, também, dando a ele o melhor de tudo. Não dá para ser súdito desse rei honrando-o apenas com o que sobra. Ele tem prioridade na vida dos seus vassalos. O melhor do seu tempo, da sua força, dos seus esforços e do seu amor deve ser empregado a serviço do Rei dos reis.

Tais são as características daqueles que, respondendo à pergunta do v.3, “subirão ao monte do Senhor e permanecerão no seu lugar santo”. A presença de Deus não está aberta a qualquer um que queira, mas àqueles que sabem quem Deus é – e creem nele assim como se revelou –, que são santificados pela fé nele e que são súditos fiéis do maravilhoso Rei. Por isso, decreta o escritor do salmo (v.6): “Este é o que o busca, aquele que procura a presença do Deus de Jacó” (zeh dôr dôreshô mebaqshê paneyka [’elohê] ya‘aqov).

O Salmo 24 é muito bom para avaliarmos o tipo de relacionamento que temos com Deus e, principalmente, se estamos entre aqueles que comparecerão e permanecerão na presença de Deus com todos os benefícios de se estar lá. Aqueles que podem responder positivamente ao questionamento do salmista devem, cada vez mais, aprimorar as características descritas no salmo. Contudo, aqueles de cuja resposta se tem um “não”, devem, imediatamente, se submeter pela fé ao “Rei da glória” pedindo perdão por seus pecados e entregando a ele suas vidas. Caso contrário, serão como aqueles “cantores de chuveiro” que, achando que merecem ser ídolos, reclamarão pelo resto da sua existência que foram injustiçados por alguém que não entende de música.

Pr. Thomas Tronco

Salmo 23 - O Pastor e Suas Ovelhas

Lembro-me, em meio a risos, de certa vez que fui a uma pizzaria de uma cidade pequena. Olhei o cardápio enquanto a atendente me observava. Decidi, finalmente, e pedi uma pizza portuguesa. A atendente me respondeu que seria impossível atender ao meu pedido porque eles não tinham ovo. Então, pedi sem ovo. Mas, segundo ela, também não tinham presunto. Corri, novamente, os olhos pelo cardápio e escolhi uma pizza de calabresa, a qual, a ouvi dizer, estava em falta. Sem olhar o cardápio, daí para frente, fui pedindo outros sabores: pedi frango com Catupiry – não tinha frango –, champignon – também não – e muzarela – só tinham queijo prato.

Numa iniciativa pra lá de prática, perguntei, então, que tipo de pizza eles poderiam fazer, disposto a pedir qualquer uma cujo pedido pudesse ser atendido. A surpreendente resposta foi: “Nenhuma! Hoje não temos massa”. Fiquei olhando para a moça, calado, sem saber como reagir a essa informação. As perguntas que corriam por minha mente eram, em primeiro lugar, “por que ela não me disse isso logo no início, em vez de me deixar pedir sabor após sabor?”; e: “Como pode uma pizzaria que está aberta não ter nenhum ingrediente para fazer pizzas?”. Bem, não comi pizza naquela noite, mas ganhei uma história curiosa para contar.

Em contraposição a essa incabível falta de ingredientes, o rei Davi falou sobre uma fonte onde nada falta. O Salmo 23 é uma declaração da confiança irrestrita do salmista no Deus eterno a quem nada pode limitar. Trata-se de um Senhor que nunca age com infidelidade ou indiferença para com os que lhe pertencem.

Se o salmo inteiro não é conhecido de todos, o trecho “o Senhor é meu pastor e nada me faltará” é um dos versículos mais conhecidos do Antigo Testamento e de toda a Bíblia. Mesmo muito conhecido, o salmo nem sempre é corretamente compreendido. Para tanto, é preciso entender o seu contexto, ou seja, o momento pelo qual Davi estava passando. Se o início do salmo é um tipo de metáfora na qual Deus é descrito como um pastor e o salmista como uma ovelha, o v.5 deixa escapar um pedacinho da realidade do escritor: “Tu preparas uma mesa diante da minha face à vista dos meus inimigos; unges com perfume a minha cabeça; minha taça está cheia” (ta‘arok lefanay shulhan neged tsoreray disshanta basshemen ro’shî kôsî rewayâ). Dois fatores nos são acessíveis diante desses dizeres. Em primeiro lugar, Davi sofria com a perseguição dos inimigos e com os riscos advindos dela. Depois, ele confiava plenamente no fato de que o Senhor o livraria dos inimigos e tornaria pública sua atuação favorável ao servo. Deus, a seu tempo, também o honraria como rei diante do povo com todos os privilégios que acompanham o cargo.

Compreendendo o contexto, é possível, então, perceber a confiança de Davi por meio da comparação do cuidado de Deus em relação ao seu povo com o cuidado de um pastor em relação às suas ovelhas. Nesse sentido, cinco ações de um pastor representam as próprias bondade e proteção divinas que Davi esperava receber, motivo pelo qual declara (v.1): “O Senhor é meu pastor, não terei necessidades” (yehwâ ro‘î lo’ ’ehsar).

A primeira ação é alimentar as ovelhas. Falando de Deus como pastor (v.2), diz o salmista que “ele me faz deitar em pastagens de erva verde” (bin’ôt deshe’ yarbîtsenî). Essa é uma figura muito representativa do trato de ovelhas. Elas se alimentando de ervas nutritivas e gostosas, fáceis de serem arrancadas e deglutidas. Podemos até brincar dizendo que é o sonho de toda ovelha. Representa muito bem o alimento dado por Deus aos crentes por meio da sua Palavra (Hb 5.12-14), a qual nos fortalece para a jornada cristã e nos dá o prazer de conhecer melhor nosso redentor e sua vontade para seu povo.

A segunda ação é conduzir com segurança. Ainda no v.2, Davi escreve: “Ele me leva a fontes tranquilas” (‘al-mê menûhot yenahalenî). Considerando que algumas regiões de Israel são montanhosas, onde há rios cujas águas correm mais rápido que as águas de rios de planície, uma das responsabilidades do bom pastor era levar suas ovelhas aonde as águas não fossem do tipo “corredeiras”. Essa necessidade vem do fato de as ovelhas terem uma pelagem densa e farta que, quando molhada, aumenta o seu peso até ao ponto em que ela não possa se sustentar na correnteza e afunde para a morte. Assim, essa tarefa pastoril é relativa ao cuidado do Senhor com suas ovelhas ao lhes alertar sobre o pecado e suas consequências (Tg 1.15) a fim de que fujam daquilo que certamente lhes causará mal.

A terceira é produzir descanso. O v.3, em uma das duas possíveis traduções, diz: “Ele devolve as forças à minha alma” (nafshî yeshôvev). Uma segunda tradução possível, cujo sentido é também verdadeiro, é: “Ele reconduz minha alma” – no sentido de produzir arrependimento no pecador. Essa tradução se encaixaria na figura do pastor buscando a ovelha desgarrada, mas, dada a sequência natural do texto, o sentido mais provável parece recair sobre o descanso, ou o refrigério. De qualquer modo, as duas possibilidades são verdadeiras. Deus tanto dá descanso ao filho cansado, sobrecarregado e oprimido (Mt 11.28), como corrige o filho que se desviou (Hb 12.5-11).

A quarta é guiar por caminhos corretos. Ainda no v.3, o salmista declara: “Ele me guia no trilho da justiça por causa do seu nome” (yanhenî bema‘gelê-tsedeq lema‘an she). Fica claro que o sentido figurado do pastor e das ovelhas começa a perder um pouco seu enfoque para dar lugar às ações, de fato, de Deus para com seus filhos. Os servos de Deus, como suas ovelhas, têm, diante de si, um caminho moralmente justo e compatível com o santo nome de Deus. Sua preocupação, diferente da das ovelhas, não é apenas ir para onde haja comida e água, mas fazer o que é moralmente correto. E nesse sentido, Deus, o bom pastor dos que creem, não apenas aponta o caminho da justiça, mas guia o seu rebanho para lá (Mt 2.6). 

A quinta ação é dar verdadeiro consolo. Diz o v.4, texto também muito conhecido e citado: “Até mesmo quando eu andar no vale da escuridão, não temerei mal algum, pois tu estás junto a mim” (gam kî-’elek begê’ tsalmawet lo’-’îra’ ra‘ kî-’attâ ‘immadî). Essa é uma declaração muito encorajadora. Entretanto, podemos nos perguntar o porquê de ele não ter medo. Será que a presença de Deus o livraria de todo mal? Bem, essa esperança, por parte do salmista, está presente no Salmo 23, mas não no v.4. Nesse caso, o motivo dado pelo escritor para sua ausência de temor é baseada em mais algumas figuras pastoris: “O teu bordão e o teu cajado, ambos, me consolam” (shivteka ûmish‘anteka hemmâ yenahamunî). Deus, em lugar de livrar total e imediatamente, trabalha com seus servos “tranqüilizando-os”, enquanto os guia e protege. É uma ação maravilhosa e surpreendente que não se aplica na situação, mas acima dela (Jo 14.27; 16.33). Não é de surpreender que Davi termine o salmo dizendo: “Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida” (’k tov wahesed yirdefûnî kol-yemê hayyay).

Se o Senhor era o pastor de Davi, é também o pastor de todos aqueles que creem em Jesus. Nosso salvador disse certa vez: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10.11). Como tal, disse que deu sua vida pelas ovelhas. É um pastor verdadeiro que ama como ninguém as suas ovelhas. Foi esse pastor que nos redimiu e nos libertou do pecado por sua morte. A partir de então, ele promove todo bem, proteção e direção que precisamos. Ele não se esquece de nada, nem fica ocupado demais para cuidar de nós. Assim, podemos repetir, com toda certeza, a famosa frase que até criancinhas sabem de cor: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”.

Pr. Thomas Tronco